sábado, 10 de outubro de 2020

Nome Espiritual

 

Namaste,

 

Todo ser humano desempenha diversas “funções” em sua vida. Cada uma destas funções mostra uma faceta especializada, especifica e focada numa determinada ação e pode variar conforme o momento (tempo) e o local (espaço).

 

Um determinado homem chamado “João”, por exemplo, assume várias funções e é reconhecido entre aqueles que apreciam suas ações pelo nome usado naquelas circunstancias. João é chamado carinhosamente de “filho” por seus pais e atende à este nome; entre seus amigos é chamado de “camarada”; quando está em seu trabalho ministrando aulas ele é chamado atenciosamente de “professor” pelos seus alunos e quando chega em casa sua esposa o beija e diz: “meu amor”.

 

Entender a função dos nomes que recebemos sob determinadas circunstancias da vida demonstra a capacidade do ser humano em adaptar-se àqueles momentos e locais e, conseqüentemente, a sua aptidão em cumprir aquilo que é esperado dele. Qual é o homem que não se colocaria em prontidão diante da voz de sua filha gritando “Pai !” ? Qual seria o bombeiro em serviço que não voltaria sua atenção à um chamado de socorro ?

 

O nome espiritual que recebemos em nossa iniciação também demonstra uma vocação e uma função e a nossa interação com este nome demonstra o quanto estamos adaptados e aptos à cumprir a função de executar o Dharma. Atender por este nome demonstra reconhecer o chamado espiritual que evoca a nossa Força de agir e a nossa Shakti pessoal.

 

O uso do nome espiritual revela mais sobre aquele que fala (age) do que sobre aquele que responde (contempla e reage). O uso do nome civil (publico) em ambiente espiritual nos remete à vida que deixamos (ou deveríamos ter deixado) lá fora. Aquela vida de preocupações, anseios e limitações.

 

Em nossas Sadhanas ou interagindo com os colegas de jornada espiritual a nossa perspectiva deve ser a de alguém alinhado com a Divindade e suas manifestações, canalizador de Força Espiritual e agente atuante que constrói o seu destino. A Sadhana e o Kula (família espiritual) devem ser o nosso ponto de (re)carregar nossas baterias para que possamos voltar renovados as batalhas do mundo. Que descanso e fôlego encontraremos se trouxermos para dentro de nosso momento e espaço de comunhão com a Divindade aqueles aspectos (e nomes) que deveríamos ter deixado lá fora ?

 

É bastante simples e fácil compreender as diferentes ações destinadas à diferentes momentos ou espaços do plano físico. Ninguém cozinha no banheiro ou faz suas necessidades no meio da cozinha. Entretanto a compreensão daquilo que não é perceptivelmente visto ou palpável exige um pouco mais de nossa atenção, sensibilidade e disciplina. Características estas que ajudam o homem ou a mulher à tornarem-se verdadeiros Sadhakas (masc.) ou Sadhikas (fem.), ou seja, aqueles que são eficientes na realização de seus anseios espirituais.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Força Espiritual - Shakti


 

Namaste,

 

Muitas vezes ouvimos falar em “Shakti” e somos ensinados que um dos principais significados desta palavra é Força Espiritual. Mas, afinal, como podemos nos aprofundar nesta definição e entender com clareza como esta Força atua ?

 

Com um pouco de reflexão podemos entender que qualquer verdade espiritual não estaria restrita à um único povo ou atuaria em apenas uma região geográfica de nosso planeta. Um axioma que devemos ter em mente ao aproximarmo-nos de qualquer verdade espiritual é que ela deve ser universal, aplicável em todos os tempos e lugares. Uma verdade parcial não pode refletir a opulência da Divindade nem tampouco ser considerada “uma verdade”.

 

Primeiro entendamos que Shakti atua sobre tudo o que há no Universo quer seja orgânico (tenha vida) ou inorgânico. Uma palavra que define bem esta Força em sua aplicabilidade humana é “Amor”, ou seja, o desejo de união. Nos seres vivos menos sencientes que os humanos esta Força pode ser chamada de “tropismo” e entre aquilo que é inorgânico “gravidade” e também “magnetismo”.

 

Shakti é responsável pela agregação de todas as coisas e, quando diminuída, por sua desagregação. Na realidade humana entendemos a Força gregária como manifestação inequívoca do amor enquanto a Força de desagregação e dissolução quer seja de nossos corpos, de nossas famílias ou de nossas sociedades é entendida como algo terrível – a morte, o ódio e o caos social. Essas características de Shakti nos levam à reflexão: “Como nós, seres humanos, podemos interagir com esta Força para mantê-la em seu caráter auspicioso e gregário ?”

 

Shakti se manifesta através da mente e do comportamento humano como “atenção”. Svami Satyananda Sarasvati com freqüencia comenta que: “Adorar é prestar atenção”. Esta atenção é o que faz a mente eventualmente deter-se e “orbitar” em torno de um objeto considerado interessante, de um perfumado prato ou de um belo corpo tomando Sol na praia. Consideramos, para nossos estudos, que estes focos de atenção possuem uma Shakti especial, mais intensa, que os diferencia de seus semelhantes. Tudo o que existe no Universo possui sua parcela de Shakti e paralelamente, todos a buscam e se dirigem à Ela. Dizem as escrituras: “Ya Devi Sarvabhuteshu ....” / “Aquela Deusa que existe em todos os seres ....”.

 

Sabedores que Shakti está presente em tudo e que sua ação se intensifica através da atenção criteriosa fica claro que disciplinas espirituais onde a mente seja treinada e focada e, onde os sentidos possam ser usados como ferramentas deste treino, gerarão bons frutos. Entretanto lembremos que as coisas existentes no Universo variam conforme o tempo e o espaço. Algo que possuía intensa Shakti num determinado momento pode vê-la reduzir-se e dissipar-se à sua volta em outro momento. Da mesma forma algo inerte e “sem vida” pode ter sua Shakti intensificada. Chegamos à outra reflexão: “Através de quais mecanismos se processaria esta constante mudança ?”

 

Segundo os conceitos do Samkhya todas as coisas existentes no Universo se manifestam de acordo com a proporção de cinco categorias distintas que são representadas e entendidas, em analogia, como os cinco elementos. Estes cinco “elementos” não se referem exatamente ao que os seus nomes indicam mas sim à estados da matéria que variam em densidade, condutibilidade (desta Força chamada Shakti) e dinamismo entre outras características.

 

Ora, dentre estes cinco “elementos” é natural concluir que a “Terra” seja o elemento de maior densidade e menor condutibilidade de Shakti enquanto o Akasha seja o elemento mais sutil e condutor embora efêmero e fugidio em seus resultados. As técnicas (ritos e Kriyas) com objetivo de cultivar (Sadhana) e transmitir (ShaktiPat, Diksha) Shakti analisam criteriosamente as características de cada artigo usado nas suas ações.

 

O entendimento do movimento centrípeto de concentrar e acumular Shakti e do movimento que lhe é oposto, centrifugo, de desagregação é essencial para determinar as ações que podem ser promovidas para o cultivo desta Força. Concentrar e Projetar (Solve et Coagula) são aptidões que podem ser aprendidas, apreendidas e treinadas pelo adepto e são desenvolvidas pelos Tântricos em suas Sadhanas. O Guru Tantrico deve ser capaz de orientar-lhe através destas disciplinas e ritos.  

 

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

A espiritualidade não é uma fantasia


 A palavra "Dharma" pode ser entendida como um estilo de vida harmonioso que propicia a realização de cada ser humano.

Por exemplo, um sacerdote deve ter uma rotina adequada para manter-se em condição de executar seus deveres - a realização de ritos eficazes. Da mesma forma um sargento ou soldado devem ter uma rotina que lhes mantenham aptos à entrar em ação no momento oportuno para cumprir seus deveres.

Entretanto a rotina do sacerdote não propiciará o trabalho do soldado e nem a deste manterá o Força Espiritual (Shakti) necessária à ação religiosa. Cada rotina deve ser equilibrada e consistente para fomentar a realização do objetivo que visa atingir.

Mesmo entre diferentes denominações religiosas este critério simples e óbvio é observável. Um Vaishnava mantém uma rotina própria para adorar as belas formas de Vishnu. Já um Brahmane Smarta seguirá as orientações de sua tradição para realizar seus ritos.

Mesmo entre linhagens similares há peculiaridades marcantes. Por exemplo, um devoto Shivaista terá um cotidiano muitissimo diferente de um Aghori embora ambos reconheçam no Senhor Shiva a mais elevada forma da Divindade.

Para ser um Aghori não basta se fantasiar com uma roupinha preta e fazer cara de mauzinho. Ser um Aghori é algo muito mais profundo do que uma simples apreciação estética superficial. Há disciplinas espirituais ali que são completamente incompativeis com quaisquer outras tradições, sejam elas Vaishnavas ou até mesmo Shivaistas. Não se pode ser um Aghori à noite e acordar pela manhã alegando ser vegetariano e puro para a adoração das fomas mais belas da Divindade. Isso seria esquizofrenia e não espiritualidade.

A Sadhana das formas iradas da Divindade (Bhaya Rupa) é bem diversa da Sadhana das fomas pacificas (SuRupa). Para viver uma vida espiritual é necessário abrir mão das nossas próprias fantasias e devaneios e mergulhar fundo na realidade do Ser.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Que práticas auspiciosas posso fazer em meu aniversário

 

O dia de nossos aniversários é um “Parva Tithi”, ou seja, é considerado um dia auspicioso como o dia de um Festival.

Neste dia o Sadhaka pode fazer uma Puja à Deidade de seu coração (Ishta Devata) e, se possível, dedicar-se a um banho sagrado (Snanam). Para este banho tenha:
(a) um vasilhame reservado apenas para atividades do Dharma e encha-o de água,
(b) faça sua Sadhana e recite, ao menos, 108 vezes o Mantra escolhido,
(c) derrame o conteúdo deste vasilhame num balde com (mais água) e acende uma lamparina de ghee no banheiro,
(d) pode tomar seu banho normalmente e enxaguar-se com as águas reservadas para isto.
De preferência use trajes de banho neste processo, ou seja, não banhe-se completamente sem roupas neste caso.

Estes ritos não seguem o calendário civil mas sim o calendário Védico. Para tal identifique o dia (Tithi) e o mês (Masa) lunar de seu nascimento e veja em qual data estas condições se repetirão no ano civil. Tanto a Puja quanto o Snanam podem ser feitos mensalmente no dia em que sua estrela de nascimento (seu Nakshatra) estiver no céu.

Jaya Ma.

 

terça-feira, 28 de julho de 2020

Juramento perante a Verdade


Namaste,

O presidente eleito do Suriname tomou posse no dia 16 de Julho deste ano. Conforme as formalidades comuns à vários Países, lá o chefe de estado também deve prestar juramento evocando à “deus” (em sentido genérico, sem mencionar o nome próprio do mesmo) através das palavras de um texto impresso num livro. A novidade nesta posse é que o presidente optou por jurar perante os Vedas o que trouxe uma diferente perspectiva à um juramento diante do sagrado.

Os Vedas se diferenciam de outros textos sagrados em sua aplicação. Eles não são apenas lidos e submetidos à uma tentativa de interpretação por algum sujeito de terno que desconhece o contexto histórico daquela escritura mas sim recitados em Sânscrito (a língua onde foram originariamente revelados) dentro de uma métrica rígida que preserva o aspecto Mantrico e litúrgico do texto.

Estas peculiaridades já são suficientes para resgatar um pouco de sacralidade de volta à nossas vidas porém ainda estamos distantes do antigo Império Romano onde nossas leis, instituições e noções de direito e legalidade se originaram. Lá os juramentos eram feitos no altar instalado no prédio do senado onde os senadores queimavam incenso diante da estátua da Deusa Nike (que significa “Vitória” e pode ser comparada à Deusa Aparajita que é uma das Avarana Devatas da Mãe Kali).

É claro que estar diante de uma representação da Divindade, devidamente consagrada, vestida e honrada com oferendas e litanias é uma experiência muito mais significativa, e inspiradora da Pura Verdade, do que apreciar a inércia das letras mortas escritas num livro qualquer. Porém lidar com conceitos genéricos, sem identidade ou sequer um nome próprio, é bastante sedutor pois facilita as coisas nivelando-as por baixo. É conveniente que certas reflexões e profundas aspirações do espírito humano sejam contidas e aparadas de forma à manter aqueles que dominam a grande Mídia em sua posição de destaque e liderança, festejando milagres ilusórios e lucrando com suas sessões de descarrego.
                       
Na foto: Deusa Nike.

sábado, 13 de junho de 2020

Sadhana 01: Evitar a Adoração Insipida


 
Sadhana 01: Evitar a Adoração Insípida

O Censo Brasileiro de 2010 aponta a seguinte distribuição religiosa no Pais: 64% se declaram cristãos; 22% protestantes e 2% “espíritas”. As demais religiões apresentam um percentual abaixo destes dois por cento. Esta proporção apresenta variação em relação às estatísticas mundiais daquele ano que apontam: 23% de muçulmanos; 22% de cristãos; 15% de Hindus; 10% de protestantes e 7% de Budistas. Apesar de seu percentual declarado os sacerdotes protestantes usam uma estratégia de controle das grandes Mídias o que faz com que sua influência cultural nas sociedades onde estão presentes seja bem mais extensa do que a sua representatividade e que as crenças peculiares daquele grupo formem uma espécie de senso comum de religiosidade.

Nos nossos dias este “senso comum” televisivo, transmitido constantemente, cria inúmeras distorções na apreciação dos fenômenos religiosos e de espiritualidade e pode vir à fomentar incompreensão ou, até mesmo, discriminação de práticas fora da padronização imposta. Uma distorção bastante evidente é a questão da adoração insípida, ou seja, a perspectiva de que a Divindade só pode ser adorada de mãos vazias e através de improvisação verbal. Essa adoração insípida se mostra como uma anomalia no fenômeno religioso que se manifesta principalmente nas agremiações protestantes. Outras religiosidades abominam a adoração insípida e fazem oferendas generosas de tudo aquilo que se origina da Divindade e que, portanto, é retornado à Ela em gratidão. Água, flores, frutas, incenso, lamparinas e velas são artigos costumeiramente presentes em locais onde há amor pela Divindade.

Conceitos distorcidos e ignorância só podem ser superados mediante clara exposição e orientação vinda daqueles que possuem o conhecimento e, neste sentido, apresentamos um pequeno texto com referencias escriturais para auxiliar os Sadhakas à educar aqueles que ainda não entendem a importância da generosa adoração e a oferta de elementos físicos em gratidão pela opulência que a Divindade manifesta no mundo à nossa volta.

Pode causar alguma estranheza que as referencias escriturais citadas sejam da Torah oriunda da tradição Judaica. Entretanto isso se deve ao fato de que embora os protestantes aleguem serem cristãos, ou seja, “filhos da Boa Nova” vinda através dos evangelhos eles raramente os citam e baseiam muitas de suas crendices numa compreensão parcial e deficitária da Torah. Os cristãos, por sua vez, categorizam suas referencias escriturais como antigo testamento e novo testamento sendo o primeiro composto de muitos textos da Torah e o segundo os evangelhos que justificam práticas litúrgicas cristãs como a comunhão durante as missas e a aplicação dos sacramentos.

Segue abaixo um convite à reflexão baseado em sete referencias escriturais que demonstram liturgias e práticas rituais presentes no antigo testamento e que são ignoradas por muitos daqueles que questionam elementos das Sadhanas das religiões baseadas no Dharma. Junto à cada citação foi acrescentado o seu correspondente no Dharma que foi preservado e é praticado até nossos dias.


01.   “Não se apresentará ninguém diante de mim com as mãos vazias.” 
Exodo 23:15
 
Comentário: Este versículo do livro Êxodo 23 resume o conteúdo tratado no capitulo e instrui que a presença diante da Divindade só é permitida com o alimento prescrito (que chamamos de Naivedyam e, neste caso, é o Chapati – pão sem fermento). Este trecho reafirma o que foi detalhadamente expresso em Deuteronômio 16:16. Vamos à ele.


02.   “Três vezes por ano todos os homens se apresentarão à seu deus (entre os judeus era o deus Jeová), no local que ele escolher (ou seja em seu templo especifico), por ocasião: (1) da festa dos pães sem fermento (o Chapati), (2) da festa das semanas e (3) da festa das cabanas. Nenhum deles deverá apresentar-se à Divindade de mãos vazias.
Deuteronômio 16:16

Comentário: Este trecho previne sobre a avareza e irreverência que caracterizam a prática da adoração insípida. Podemos observar que apresentar-se de mãos vazias perante a Divindade é apenas um disfarce para a avareza espiritual que impede a expressão sincera de gratidão. Somente os homens fortes e seguros de sua fé podem ser generosos sem receio pois sabem que o óleo de suas lamparinas não lhes faltará em suas cozinhas.


03.   “Arão fará queimar incenso aromático (Dhupam) sobre o altar (Vedika) todas as manhãs (primeiro momento do Sandhya Vandanam), assim que vier cuidar das lamparinas (Dipam).”
Êxodo 30:7

Comentário: Arão demonstra seguir os preceitos indicados ao bom devoto, ou seja, oferecer ao menos um Arati (oferta de lamparina de óleo e incenso) diante do altar no momento mais oportuno - o primeiro horário da manhã. 

 
04.   “Trarás à casa do Senhor, teu Deus (ou seja, seu Ishta Devata), as primícias dos primeiros frutos de tua terra.”
Êxodo 23:19

Comentário: Claramente o texto não menciona moedas ou dinheiro mas sim alimento (Naivedyam) para freqüentar o Templo (Mandiram) da Deidade. Portanto uma possível alegação de que o dizimo substituiria a oferta real e verdadeira de artigos físicos não se justifica.


05.   “Três vezes por ano Salomão oferecia holocaustos (Yajñas) e sacrifícios de paz (Shanti Karma) e comunhão sobre o altar que erguera a sua Deidade e queimava incensos puros e perfumados (Dhupam) diante da Divindade.
Reis 9:25

Comentário: A palavra “Holocausto” é de origem Grega e significa “Holo” – completo, por inteiro; “Causto” – queimado, ou seja, aquilo que é completamente queimado em oferecimento à Divindade. Isso é feito nas cerimônias de fogo praticadas no Dharma, estes ritos recebem diferentes denominações conforme a complexidade envolvida: AgniHotra, Homa, Havana ou Yajña. A oferenda (Dravya) completamente queimada significa o desprendimento (Tyaga) e absoluta confiança do devoto diante de seu Ishta Devata, a forma da Divindade que habita em seu coração.


06.   “Todo o seu ganho será destinado para os que vivem na presença da Divindade (ou seja, os Pujaris/Brahmanes que vivem em seu Templo), a fim de que tenham bastante suprimento, bons alimentos (Bhoga) e até roupas finas (Vastram).”
Isaias 23:18

Comentário: É dever do Grhasta (aquele que mantém uma casa) ajudar á manter os Templos das várias formas da Divindade. Entre as ofertas prescritas para a manutenção das atividades dos Templos locais estão alimentos e até roupas de uso sacerdotal como Dhotis e Sáris para suprir as necessidades daqueles que se dedicam exclusivamente ao serviço do próximo através da intercessão das forças divinas.


07.   Em Êxodo 37 temos uma detalhada descrição da instalação de um verdadeiro altar dentro da tradição da Torah que não é um palco para a encenação de um sacerdote mas sim um local para apresentar oferendas de gratidão.   

   “Fez também dois querubins de ouro; de obra batida os fez, nas duas extremidades do propiciatório.”
Êxodo 37:7

Comentário: As Murtis (estátuas consagradas) instaladas no altar são descritas neste versículo.

    “E fez de ouro puro os utensílios que haviam de estar sobre a mesa, os seus pratos e as suas colheres (este conjunto é chamado de Puja Thali), e as suas tigelas e as suas taças (chamados de Patrani, plural de “Patra” - vasilhames) em que se haviam de oferecer libações (chamadas de Tarpanam e Abhishekam).”
Êxodo 37:16  

"Também fez o azeite santo da unção (Gandham), e o incenso aromático (Dhupam), puro, qual obra do perfumista.
Êxodo 37:29

Comentário: O Dharma que mantém de forma integra e legitima as tradições sagradas da antiguidade pratica a unção (Lepanam) com o óleo perfumado ou Attar (Gandham) e queima diariamente o incenso (Dhupam) em seus altares.

terça-feira, 24 de março de 2020

Quarentena entre os Deuses



Gostaríamos de partilhar uma bela narrativa do Templo de Senhor Jagannatha em Puri – Índia. Este é o maior Templo do Senhor Jagannatha no mundo e certamente é o mais tradicional entre os Vaishnavas.

Todos os anos, antes do Festival do Ratha Yatra, o Senhor Jagannatha adoece. Vamos entender as parábolas (simbologia) desta narrativa.

Na Lua cheia após o auge do verão o Senhor Jagannatha recebe um banho ritual (Abhisheka) de 108 potes de agua consagrados (Kalashas). Este ritual chamado de Snana Purnima visa “refrescar” as energias (Shakti) emanadas do Senhor. Após este grande Abhisheka as Deidades são colocadas em quarentena pelos 15 dias da quinzena lunar escura (Krishna Paksha) se sucede a Lua cheia.

Neste período as Deidades do Templo não recebem oferendas de alimento sólido, apenas o extrato de várias folhas e raízes medicinais (Sarva Oshadhi) para intensificar a percepção dos devotos de suas energias espirituais (Shakti). Nenhum devoto pode visitar o Templo e ter o Darshana neste período. Após a “quarentena” o Senhor Jagannatha ressurge em seu total esplendor e começa o Festival do Ratra Yatra onde as sagradas Murtis são levadas as ruas para que todos tenham a misericórdia de receber bênçãos mesmo sem ir ao Templo.

Este calendário litúrgico é seguido à milhares de anos e influenciou o culto de vários outros Deuses que também se afastaram por um período, as vezes de 40 dias, e se isolaram ou foram para o deserto ser “tentados” e retornar vitoriosos para abençoar seus devotos.

Pela primeira vez na história deste ciclo da humanidade (Kali Yuga) estamos vivenciando uma quarentena mundial e após os eventos previstos nas escrituras retornaremos preparados para uma Nova Era alicerçada no Dharma, ou seja, em equilíbrio com a natureza. Que Mãe Kali, a Mãe do Universo, nos abençoe à todos. 

Jaya Maa.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Poder e Graça

 
Qual é a justificativa teológica da adoração à Mãe Divina ?
(Tema do capitulo IV do MahaNirvana Tantra desenvolvido numa perspectiva de estudo comparativo das religiões)

A Divindade, ou seja, a Verdade (Sat/सत्), conforme a percepção humana, manifesta-se nos Universos através de dois aspectos: "o Poder" (Chit/चित्) e "a Graça" (Ananda/आनन्द). Este aspecto do "Poder e Graça" também está presente nos descrições místicas de outras tradiçãos. A Cabala, por exemplo, o atribui as esferas de Geburah e Chesed respectivamente. Já o Candomblé Brasileiro o atribui aos dois extremos do Xirê (Dança Circular dos OIrixás) - Exu, domo de todo o Axé (Shakti/शक्ति) e Oxalá (Ananda/आनन्द). No Cristianismo utiliza-se o termo "Poder e Graça".

Este Sat-Chit-Ananda (Verdade, Consciência e Bem Aventurança) distribui-se a todos os seres através da mediação da Mãe Divina (Adya Kali/अद्या काली) e das demais hierarquias divinas também conhecidas como arcanjos e coros angélicos (Bhutas/भूत e Ganas/गण). Toda tradição espiritual legitima reconhece a atuação e importancia dos seres pertencentes à hierarquia divina, apenas as crendices mais recentes, surgidas à partir de outubro de 1517 desconsideram ou até mesmo abominam a interação com or seres e as obras oriundos da Divindade.

Atentem que estabelece-se então uma identidade entre a Consciência (Chit/चित्) e o Poder (Shakti/शक्ति) ..... Vem então à mente o que meu Guru costuma comentar: "Adorar é prestar atenção". Para aonde quer que direcionemos o fluxo de nossa atenção, ou seja, de nossa consciência, para lá direcionaremos também um poder de realização.

Jaya Maa !

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Sabores da Adoração

Talvez vocês já conheçam o “cidadão” da fotografia .... mas não o conhecem pelo seu nome Indiano. Sim, é um pé de moleque. Naquele País mantém-se ainda o costume de preparar este e outros doces em casa, junto à família.

A Índia e o Brasil partilham um clima semelhante e muitos alimentos disponíveis por lá também estão disponíveis por aqui e, aos poucos, estão sendo (re)descobertos. Temos exemplos no Açafrão da terra (Haridram), no Tribulus Terrestris (Gokshura) e no Pulao que é um tipo de arroz à Grega .... só que Indiano.

Como já sabemos, numa Puja o alimento (Naivedyam) é um dos cinco itens essenciais. Os demais são o óleo essencial (Gandha), as flores (Pushpa), o incenso (Dhupa) e a lamparina (Dipa). A opção mais simples é a oferta de frutas porém os Sadhakas e devotos que conhecem as injunções para o preparo de alimento à ser servido no altar se beneficiarão muitíssimo ao incluir esta atividade em suas Sadhanas.

Juntar os amigos para partilhar e preparar receitas antes da Puja será um agradável upgrade de nossas Sadhanas e tornarão o evento ainda mais festivo. Não é necessário que seja um alimento sofisticado. O segredo está na simplicidade e alegria de estar juntos. Começar com as receitas de Modaka (doces em forma de bolinhas) que são oferecidas ao Senhor Ganesha é uma boa escolha.

Após a descontração no momento do preparo dos alimentos, que pode incluir até as crianças e os mais novinhos nas tarefas mais simples, todos podem se congregar diante do altar (que pode ser uma pequena prateleira decorada), fazer a saudação inicial (Devata Pranama), colocar ali uma gotinha de perfume (Gandha) e flores, acender o incenso e a lamparina, colocar o pratinho com os alimentos selecionados e, então, recitar o mantra escolhido para a ocasião. Após um mínimo de 108 recitações, ou seja, uma volta do JapaMala (rosário para Mantras) o alimento estará consagrado e passa à ser chamado de “Prasada” – a opulência da Divindade.

Estas sugestões nos afastam da avareza da adoração insípida tão comum em nossos dias. Esta forma de adoração é uma crendice de origem protestante que tenta interagir com a Divindade apenas através de embromação (embroma + oração) improvisada. Tornar o momento de rezar um momento especial onde celebramos o privilégio de comungar com a forma da Divindade escolhida é algo muito auspicioso.

Certamente a Divindade “não precisa” de nossas oferendas, elas são sacrificadas e consumidas como símbolo de nossa união com o Deus escolhido. União esta partilhada por todos os nossos sentidos – olfato, tato, paladar, visão e audição. Isso é um nível mais profundo e intenso de experiência muito distante da adoração insípida, tão distante como ler num livro a descrição de uma refeição ou tê-la diante de nós servida sobre a mesa. O Dharma é uma vivência diária e real não apenas palavras escritas num livro.