sábado, 11 de setembro de 2021

Afinal, basta “ter fé” nos Tantras para que alcancemos os frutos prometidos por esta tradição ?

 

Primeiro devemos analisar quais seriam os frutos (KarmaPhala) das disciplinas espirituais (Sadhana-s) descritas nos Tantras. Estes frutos são Bhukti (o desfrute da vida) e Mukti (Libertação Final). Ambos, repetidamente mencionados nas escrituras Tântricas, são a continuidade dos Purushartha-s (objetivos da encarnação humana) descritos e legitimados pelos Vedas: Dharma, Artha e Kama que podem ser resumidos como “Bhukti” e Moksha que também é conhecido como “Mukti”.  

 

Uma vez que tenhamos refletido e compreendido estes objetivos devemos analisar a metodologia proposta nas escrituras Tântricas. Ali também se usa o termo “Bhakti” porém não no mesmo sentido de outros Dharmas que sofreram uma maior sincretização com as tradições Abrahamicas. Vejamos, então, ao que se refere “Bhakti” nos Tantras.

 

A palavra “Bhakti” vêm do verbo Bhaj/Bhajati que significa partilhar (um bem ou objeto) ou alocar-se (numa atividade). Portanto o Bhakta de uma das formas da Divindade é aquele que partilha uma experiência ou estado relativo à este mesmo(a) Deva ou Devi. O Bhakta também pode ser entendido como aquele que dedica-se as mesmas atividades descritas ou atribuídas à forma da Divindade sobre a qual ele se interessa ou “adora”. Sob este aspecto o Bhakta também é chamado de “Sadhaka”, ou seja, aquele que se esforça para atingir a perfeição numa determinada disciplina.

 

Este Sadhaka é o ponto central das disciplinas espirituais dos Tantras. Ele é aquele que cultiva as aptidões e age seguindo o exemplo dos atributos da Divindade descritos nas visualizações (Dhyana-s) escriturais e preconizado nas injunções (Vidhi-s) orientadas para garantir o sucesso de seus esforços.

 

O sucesso nestes esforços é descrito como as várias formas de transe místico (Samadhi) apresentados no Yoga Sutra escrito pelo sábio Patañjali. Observemos alguns destes estados e teremos uma clara referencia que o seu alcance não se deve à uma fé ou crendice mais sim à responsável disciplina ao seguir a metodologia sugerida. O Yoga Sutra não tem seu foco na crença pessoal (Shraddha) daquele que age mais sim na ação em si.

 

Salokya Samadhi, Sarupya Samadhi e Sadrishya Samadhi se referem respectivamente à aquele que percebe-se no mesmo “local” ou estado onde a forma da Divindade habita; àquele que se vê como a própria Divindade; e àquele que assume o mesmo ponto de vista e, portanto, executa as mesmas ações que a Divindade, tornando-se um representante desta sobre a Terra.

 

Em resumo, Bhakti nos Tantras é ação e não apenas fé. Ação constante (Nitya), disciplinada (Sadhya) e devidamente aprendida através de um Guru (Shishya).

 

Na foto: uma das formas iradas do Senhor Ganesha – Vira Ganapati, responsável por garantir acesso aos conhecimentos mais profundos somente após o devido preparo.


 

domingo, 1 de agosto de 2021

Śhakti Vipat

Namaste,

 

Por favor observem um ponto que o Sādhaka avançado deve sempre atentar: sob a perspectiva da ciência ritualística a oferenda especial (Viśheṣha) é algo superior ou além da oferenda comum (Sāmānya) porém ela não deve ser apresentada por si só - sāmānyāt evam viśeṣaḥ, ou seja, algo só pode ser considerado “especial” diante de algo considerado “comum”.

 

Na ausência do “comum” aquilo que seria “especial” torna-se, ele próprio, comum. O “algo comum” (Sāmānya) é o alicerce (Aṅga) que sustenta aquilo que é especial.

 

O hábito de ignorar este aspecto e reduzir o especial à algo comum leva à “quebra” de Śhakti (Śhakti Vipat) devido à inversão estrutural e pode tornar-se a causa da queda de muitos adeptos deslumbrados por constantes “novidades”.

 

A separação das disciplinas espirituais e Pūjās em Nitya Karma (ação cotidiana) e Naimittika Karma (ações ocasionais) está baseada no conceito de Sāmānya/Viśheṣha e visa evitar Śhakti Vipat, ou seja, a quebra de Śhakti. Cada festival ocasional (Utsava) tem suas próprias peculiaridades e seu próprio momento.

 

A Sādhana cotidiana (Nitya Karma) deve ser mantida o mais simples possível. O "algo à mais" pode ser acrescentado quando oportuno mas não deve tornar-se rotina se não houver absoluta certeza da capacidade em mantê-lo.

 

Essa dinâmica de Śhakti, ou seja, essa variação de freqüências energéticas, é um dos motivos pelos quais o Guru deve ser sempre consultado diante de duvidas quanto à procedimentos ou práticas especificas.