sexta-feira, 5 de junho de 2026

Quem nunca foi Tantrico não pode deixar de sê-lo


 Quem nunca foi Tantrico não pode deixar de sê-lo

 

A busca de amparo espiritual é essencial à alma porém há também outros aspectos relevantes pois eles formam a base para que essa busca seja Siddha (bem-sucedida). O Tantra claramente endossa que os objetivos da encarnação humana são: Dharma (vida equilibrada), Artha (alcance dos meios de realização), Kāma (realização dos anseios emocionais) e Mokṣha (Libertação Final).

 

Entretanto é lamentavelmente frequente que pessoas que buscam um(a) Guru ou Templo Tântrico tenham suas vidas mantidas muito aquém de seus potenciais. Ou pior ainda – vejam sua saúde, vida financeira ou estado emocional declinarem após juntar-se a instituição. Isso ocorre porque, na maioria das vezes, o Guru ou a instituição que alega ser supostamente “Tântrico” conhece apenas um amontoado de diferentes perspectivas misturadas e não tem nenhuma prática em fazer os ritos prescritos dentro das próprias escrituras para o bem estar dos Sādhakas.

 

O incauto interessado(a) pensa ter recebido uma verdadeira “iniciação” e começa a realizar as disciplinas espirituais prescritas (quando são prescritas, pois há “Gurus” que não tem nada a ensinar e seus encontros são apenas de conversas em vão e citações de livros de autoajuda) porém sua vida não progride.

 

Aqui há duas possibilidades diante do Sādhaka(ikā) frustado(a) em suas expectativas: deixar a instituição ou ir direto ao seu Guru em busca de soluções.

No primeiro caso temos uma legitima “Volta dos que não foram” pois o(a) interessado(a) nunca chegou a conhecer a verdadeira tradição Tântrica e imagina que o fracasso se deve a ela e não a instituição espiritualmente fraca ou diletante.

No segundo caso o(a) Guru nem sempre está apto(a) a mostrar-se accessível e fazer o necessário pois ele(a) próprio não sabe o que saber. O Guru que alega que seriam necessárias cerimonias de fogo mensais por um ano e cobra uma fortuna por isso é um farsante. Ele não tem a Śhakti (Força Espiritual) para atuar de maneira rápida e ágil.

 

Os Tantras enfatizam que a relação do Sādhaka com seu Guru deve ser direta e sincera e que é a partir daí que todos os ensinamentos e práticas frutificam. O Sādhaka(ikā) que não confia em seu Guru e vai buscar num(a) astrólogo(a) ou terceiros para especular e/ou comentar o que lhe dado diante dos Devas não obtém os frutos de suas disciplinas espirituais e, se houvesse uma reflexão prévia, nem sequer deveria ter se apresentado para iniciação.

 

A observação e a confiança mútua devem vir antes da iniciação justamente para evitar exemplos de deselegância ou despreparo ou, pior ainda, imaginar que as falhas e deficiências demonstradas seriam da tradição e não dos Gurus e instituições sem domínio das práticas que eles alegam ser capazes de orientar. Ambos: Sādhakas e Guru devem ter lucidez e sinceridade no caminho espiritual dos Tantras.

 

domingo, 12 de abril de 2026

Falsas tradições

 

  

Falsos Sampradāyas

Quem nunca foi numa pizzaria de preços absurdos onde a dona alegava que os custos eram de uma legitima pizza com receita Italiana ?  ...... Até que um dia se descobre que a pretensa Italiana era, na verdade, árabe e tudo ali, até o sotaque, era falso ?   

 

Hoje os golpes são, infelizmente, muito comuns seja nos serviços bancários, nos produtos alimentícios ou até mesmo entre aquelas pessoas que alegam ser espiritualizadas. Falsas “iniciações”, encenações teatrais que simulam rituais e até a apropriação indevida de nomes de tradições reconhecidas se tornaram rotineiros.

 

Antes o risco ao fazer uma busca na internet por “Tantra” era apenas de encontrar uma prostituta decadente com jaleco e luvas que esconderiam a falta de atribuitos físicos para aquela profissão. Hoje porém elas se especializaram: tem apelidos em Sânscrito, falam em supostas linhagens baseadas em Gurus mortos que já não podem negar a farsa e se apropriaram de palavras que não conhecem o significado e que mal conseguem pronunciar com clareza.

 

Entretanto algumas coisas não mudam – as golpistas nunca tiveram verdadeiro foco em nenhuma tradição, sua única tradição é fazer dinheiro ...... Portanto, sempre verifique os registros passados da suposta instituição onde você busca conhecer o Tantra. Uma pessoa que alega ser iniciada a décadas porém só apareceu com um apelido Indiano na semana passada (que se alega ser “nome de iniciação”) é muito provavelmente uma farsante. As constantes novidades em iniciações e cursos não correspondem ao cotidiano de uma verdadeira instituição religiosa seja ela ocidental ou tântrica. O panteão de uma tradição não muda oiu acrescenta Deidades, workshops apelidados de iniciações onde Mantras são transmitidos no atacado (em grupos de 10 ou mais) são coisas fantasiosas que nunca ocorreram em instituições sérias  ....... 

 

Esteja atento, nem todas as pessoas que falam em Kālī buscam uma verdadeira conexão com a Divindade.


sábado, 11 de janeiro de 2025

Genealogia pós-diluviana


 

Genealogia pós-diluviana

 

Já comentamos em ocasiões anteriores sobre a descrição do dilúvio universal (Vārāha Pralaya) conforme as narrativas aceitas e preservadas entre os Tantricos. Um dos textos de referencia primária sobre este tema é o Kālikā Purāṇa (XXXII à XXXIV) e é de lá que compilamos a narrativa do período pós-diluviano onde aqueles que foram salvos dentro do imenso barco construído por Svāyambhuva Manu se empenharam na reconstrução de tudo.

 

Antes do advento do Vārāha Pralaya o mundo era governado por Svāyambhuva Manu um regente reconhecido por sua ponderação e sabedoria e os reinos progrediam. Numa certa ocasião um sábio que se apresentou como Kapila Muni foi até o palácio para audiência e diante de Svāyambhuva Manu solicitou terras para que pudesse executar suas disciplinas espirituais e partilhar seus méritos. Svāyambhuva refletiu sobre o pedido e argumentou que nenhum dos outros grandes sábios jamais havia lhe solicitado terras anteriormente e que haviam inúmeros lugares reconhecidamente sagrados e de peregrinação que eram accessíveis à todos aqueles desejosos de praticar suas Sādhanas e disciplinas espirituais. Diante da negativa Kapila Muni enfureceu-se e proclamou uma terrível maldição diante do governante: “Todo o que existe, todas as construções e reinos assim como todos os seres perecerão numa imensa destruição que, em breve, se abaterá sobre o mundo”. Svāyambhuva sentiu a Śhakti, a Força Espiritual, daquelas palavras e foi tomado pelo pavor. Kapila Muni desapareceu após pronunciar a maldição e, então, Svāyambhuva decidiu deixar o palácio e dedicar um tempo à suas próprias disciplinas espirituais para entender (e talvez impedir) aquele terrível destino.

 

Svāyambhuva decidiu recitar um Mantra de Viṣṇu e pedir por sua intercessão..... Entretanto, o que ele não sabia é que o sábio Kapila Muni era apenas o próprio Viṣṇu disfarçado num corpo humano para revelar a tragédia futura. O motivo da tragédia vindoura foi um conflito de proporções cósmicas entre Vārāha e Śharabha que, inevitavelmente, teria reflexos sobre o plano terrestre.

 

Após suas disciplinas espirituais Svāyambhuva retornou ao palácio e, num dia, deparou com uma pequenina criatura que lhe pediu socorro. Era um minúsculo peixinho que foi então levado para um aquário no palácio e cuidado como se fosse um filho do governante. Com o tempo a criatura assumiu proporções enormes e o Manu lhe confrontou: “Diante dos eventos eu sei que você não é um peixe. Diga-me quem tu és na verdade.”. Ao ser confrontada a criatura mostrou sua verdadeira forma – o próprio Viṣṇu, que numa voz semelhante aos trovões anunciou: “O sábio Kapila que lhe alertou era eu mesmo e agora chegou o momento de lhe advertir sobre um terrível dilúvio que varrerá toda a Terra.”

 

O Senhor Viṣṇu orientou o governante à construir um imenso barco com madeiras resistentes. Esse barco deveria abrigar amostras de todos os seres, plantas e sementes que haviam sobre a Terra assim como todo o conhecimento acumulado (Vedas), Dakṣha, o prestigiado sacerdote, e os sete grandes sábios. Assim foi feito e, conforme anunciado, a catástrofe se abateu sobre o planeta.

 

Quando as águas baixaram Brahmā, Viṣṇu e Śhiva se aproximaram do imenso barco e falaram à Svāyambhuva, Dakṣha, os sete sábios e à Nara e Nārayaṇa (mentalmente criados por Brahmā e colocados então no barco). Estes dois últimos foram orientados à usar sua Força Espiritual (Śhakti) para restabelecer plenamente os Devas em suas funções. Svāyambhuva foi encarregado de plantar todos os gêneros vegetais de forma que a Terra se tornasse novamente abundante. Dakṣa, o expert sacerdote e os sete sábios foram orientados à realizar poderosos Yajñas para propiciar Hari e reacender as chamas dos rituais.

 

Dakṣha e os sete sábios (Kaśhyapa, Atri, Vaśiṣṭha, Viśvāmitra, Gautama, Jamadagni e Bharadhvāja) realizaram um grande Yajña que durou doze anos. Após .este rito Dakṣha criou treze filhas (Aditi, Diti, Danu, Kālā, Danāyu, Simhikā, Muni, Pradhā, Variṣṭhā, Vinatā, Kapilā, Krodhā e Kadru) todas incrivelmente férteis e as entregou ao sábio Kaśhyapa para que repovoassem o mundo:

Da união de Kaśhyapa com Aditi nasceram os doze Adityas;

Com Diti Kaśhyapa teve apenas um filho – HiraṇyaKaśhipu e deste nasceram Prahlāda, Somhlāda, Bāṣkala e Śhibi;

Kaśhyapa e Danu tiveram quarenta filhos. A descendência destes quarenta se espalhou pelo mundo;

Com Danāyu Kaśhyapa teve quatro poderosos filhos: Vīrabhadra, Vīkṣhara, Vatsa e Vṛtta;

Com Kālā quatro filhos também foram gerados: Vināśhana, Krodha, Krodhahantā e Krodhachakra. Estes filhos se tornaram os reis entre as nações surgidas dos filhos de Danu;

Kaśhyapa e Siṁhikā tiveram também quatro filhos: Rāhu, Suchandra, Chandrahantā e ChandraVimardana;

Com Muni ele teve um filho chamado Śhukra que veio à se tornar o Guru da descendência dos filhos de suas esposas Diti, Danu e Kālā. Śhukra, por sua vez, teve quatro filhos, todos sacerdotes dos Asuras. Além de Śhukra a esposa Muni teve outros vinte e um filhos e oito filhas;

Com Prādhā Kaśhyapa teve dez filhos que se tornaram Devas, Apsarās e Gandharvas;

Com sua esposa Vinatā ele teve seis filhos: Tārkṣhya, Ariṣṭanemi, Anuru, Garuḍa, Āruṇi e Vāruṇi.

Com Kapilā o sábio Kaśhyapa gerou Amṛta, os Brāhmaṇes, o gênero bovino e vários sábios;

Com a terrível Krodhā Kaśhyapa teve oito filhos: Vegavān, Ketumān, Ayaḥsu, Bhānu, Aśvodyapati, Kṛṣṭu, Aṣṭaparvā e Ajuru. Todos os filhos das esposas Simhikā e Krodhā foram conhecidos por sua crueldade;

Com sua esposa Kadru o sábio teve seis filhos: Śheṣha, Vāsukirāja, Takṣhaka, Kulika, Kūrma e Sumanā.

Não há registro de filhos com sua esposa Variṣṭhā.