sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Poder e Graça

 
Qual é a justificativa teológica da adoração à Mãe Divina ?
(Tema do capitulo IV do MahaNirvana Tantra desenvolvido numa perspectiva de estudo comparativo das religiões)

A Divindade, ou seja, a Verdade (Sat/सत्), conforme a percepção humana, manifesta-se nos Universos através de dois aspectos: "o Poder" (Chit/चित्) e "a Graça" (Ananda/आनन्द). Este aspecto do "Poder e Graça" também está presente nos descrições místicas de outras tradiçãos. A Cabala, por exemplo, o atribui as esferas de Geburah e Chesed respectivamente. Já o Candomblé Brasileiro o atribui aos dois extremos do Xirê (Dança Circular dos OIrixás) - Exu, domo de todo o Axé (Shakti/शक्ति) e Oxalá (Ananda/आनन्द). No Cristianismo utiliza-se o termo "Poder e Graça".

Este Sat-Chit-Ananda (Verdade, Consciência e Bem Aventurança) distribui-se a todos os seres através da mediação da Mãe Divina (Adya Kali/अद्या काली) e das demais hierarquias divinas também conhecidas como arcanjos e coros angélicos (Bhutas/भूत e Ganas/गण). Toda tradição espiritual legitima reconhece a atuação e importancia dos seres pertencentes à hierarquia divina, apenas as crendices mais recentes, surgidas à partir de outubro de 1517 desconsideram ou até mesmo abominam a interação com or seres e as obras oriundos da Divindade.

Atentem que estabelece-se então uma identidade entre a Consciência (Chit/चित्) e o Poder (Shakti/शक्ति) ..... Vem então à mente o que meu Guru costuma comentar: "Adorar é prestar atenção". Para aonde quer que direcionemos o fluxo de nossa atenção, ou seja, de nossa consciência, para lá direcionaremos também um poder de realização.

Jaya Maa !

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Sabores da Adoração

Talvez vocês já conheçam o “cidadão” da fotografia .... mas não o conhecem pelo seu nome Indiano. Sim, é um pé de moleque. Naquele País mantém-se ainda o costume de preparar este e outros doces em casa, junto à família.

A Índia e o Brasil partilham um clima semelhante e muitos alimentos disponíveis por lá também estão disponíveis por aqui e, aos poucos, estão sendo (re)descobertos. Temos exemplos no Açafrão da terra (Haridram), no Tribulus Terrestris (Gokshura) e no Pulao que é um tipo de arroz à Grega .... só que Indiano.

Como já sabemos, numa Puja o alimento (Naivedyam) é um dos cinco itens essenciais. Os demais são o óleo essencial (Gandha), as flores (Pushpa), o incenso (Dhupa) e a lamparina (Dipa). A opção mais simples é a oferta de frutas porém os Sadhakas e devotos que conhecem as injunções para o preparo de alimento à ser servido no altar se beneficiarão muitíssimo ao incluir esta atividade em suas Sadhanas.

Juntar os amigos para partilhar e preparar receitas antes da Puja será um agradável upgrade de nossas Sadhanas e tornarão o evento ainda mais festivo. Não é necessário que seja um alimento sofisticado. O segredo está na simplicidade e alegria de estar juntos. Começar com as receitas de Modaka (doces em forma de bolinhas) que são oferecidas ao Senhor Ganesha é uma boa escolha.

Após a descontração no momento do preparo dos alimentos, que pode incluir até as crianças e os mais novinhos nas tarefas mais simples, todos podem se congregar diante do altar (que pode ser uma pequena prateleira decorada), fazer a saudação inicial (Devata Pranama), colocar ali uma gotinha de perfume (Gandha) e flores, acender o incenso e a lamparina, colocar o pratinho com os alimentos selecionados e, então, recitar o mantra escolhido para a ocasião. Após um mínimo de 108 recitações, ou seja, uma volta do JapaMala (rosário para Mantras) o alimento estará consagrado e passa à ser chamado de “Prasada” – a opulência da Divindade.

Estas sugestões nos afastam da avareza da adoração insípida tão comum em nossos dias. Esta forma de adoração é uma crendice de origem protestante que tenta interagir com a Divindade apenas através de embromação (embroma + oração) improvisada. Tornar o momento de rezar um momento especial onde celebramos o privilégio de comungar com a forma da Divindade escolhida é algo muito auspicioso.

Certamente a Divindade “não precisa” de nossas oferendas, elas são sacrificadas e consumidas como símbolo de nossa união com o Deus escolhido. União esta partilhada por todos os nossos sentidos – olfato, tato, paladar, visão e audição. Isso é um nível mais profundo e intenso de experiência muito distante da adoração insípida, tão distante como ler num livro a descrição de uma refeição ou tê-la diante de nós servida sobre a mesa. O Dharma é uma vivência diária e real não apenas palavras escritas num livro.


domingo, 17 de novembro de 2019

As Formas da Divindade





               As formas da Divindade (Rupa) descritas pelo Sanatana Dharma nos cativam por sua beleza e pela riqueza de detalhes de sua simbologia. Elas nos servem de inspiração para (re)aproximar-mo-nos de um plano divino e de plena harmonia. Quem não se sente cativado pela aparência do Senhor Krishna ? ou contemplativo diante da representação do Senhor Shiva em meditação ? ou encantado pelo aspecto doce e brincalhão do Senhor Ganesha ?

               A representação destas formas que são usadas como referencia em práticas de meditação e outras disciplinas espirituais (Sadhanas) foram reveladas por profetas (Rshis) quando estavam em estado de comunhão com a Divindade, em profundo êxtase místico. Estes profetas tiveram a visão direta (Darshana) da beleza do Universo e então ...... cantaram ! Estes cânticos sagrados estão preservados nas escrituras (Shastras) e detalham a forma que foi visualizada pelo profeta (o Dhyanam da Divindade), os atributos que foram contemplados (descritos nos Stotras) e a freqüência vibratória associada à esta revelação (que, quando audíveis, são chamadas de Mantras).

               Entretanto, nesta Era de escuridão (Kali Yuga) muitos não compreendem o que seria a visão de uma realidade divina e insistem na perspectiva materialista de que tudo o que seria espiritualmente válido deveria estar manifesto no plano físico. Nesse obscurantismo teológico apela-se para a busca de evidencias materiais da manifestação e existência física das formas da divindade. Este obscurantismo tornou-se ainda mais intenso à partir do momento em que pode ser abertamente pregado à partir de 31 de Outubro de 1517.

               Temos um exemplo no Cristianismo que nas suas origens era bem diferente do que muitos o concebem hoje. No século XX com o forte proselitismo e influência cultural de outras religiões como o Protestantismo (espécie de Judaísmo Messiânico baseado na Torah/Antigo Testamento) e o Satanismo (Inversão moderna das polaridades do Maniqueísmo) houve praticamente um esquecimento total das crenças da antiguidade Cristã. Dentre estas crenças podemos citar três exemplos marcantes: 1. a proibição dos ensinamentos referentes a reencarnação; 2. a perseguição e extermínio dos antigos Gnósticos e 3. o total esquecimento do conceito de Docetismo.

               Os ensinamentos sobre a reencarnação se apresentam como uma resposta ao dilema de uma alma imortal encarnada num corpo mortal e, portanto, transitório. Há muitas diferenças sutis nas perspectivas de diferentes escolas e um estudioso prudente jamais trataria a crença na reencarnação como um fenômeno ou idéia única e indiferenciada. Há descrições como a do Samkhya Karika que nos remetem ao conceito moderno do código de DNA até pontos de vista mais místicos. Grandes filósofos da antiguidade como Pitágoras – o Pai da Matemática afirmam a realidade da reencarnação e descrevem com clareza e acuidade histórica suas encarnações anteriores. O ensinamentos sobre reencarnação foram proibidos à partir do Concilio de Constantinopla no ano de 553 por decisão do Imperador Justiniano que casou como uma ex-prostituta chamada Theodora que temia reencarnar-se como escrava ..... Esta proibição foi efetivada apesar da reencarnação ter sido declarada como dogma fundamental do Cristianismo no concilio da Calcedônia em 451.

               Já o movimento Gnóstico era composto por várias escolas e bastante popular nos primeiros anos do Cristianismo, ele competia diretamente com outras seitas Cristãs como os Romano-Alexandrinos, os Coptas e outros. Os Gnósticos acreditavam que jesus era uma encarnação (Avatar) do Verbo Divino (Vak/Savitri) adequada para aquela época ou Eon (Yuga). A influência espiritual do Grande Iniciado, do “Ungido” (“Chrestus” em Grego) era aceita e cultivada através de ritos, entretanto eles não concebiam o Chrestus como uma pessoa física mas sim como um arquétipo de luz. Estes ritos, posteriormente, influenciaram a Theugia neo-Platonica que era praticada tanto por Cristãos como por Pagãos na adoração de suas Divindades. O Gnosticismo foi combatido por Irineu de Lyon (que viveu entre os anos 130 e 202) e proscrito nos primeiros dois séculos do Cristianismo.

               Logo no inicio do Cristianismo muitos de seus adeptos buscaram as evidencias de uma suposta existência física do jesus. A ausência de evidencias em fontes diretas como os registros documentais de Poncio Pilatos ou indiretas como a pesquisa do historiador Flávio Josefo fortaleceram a percepção de que o Chrestus é uma realidade espiritual que independe de uma encarnação física num corpo humano para exercer a sua influência benéfica. Esta percepção partilhada por muitos Cristãos cultos e viajados do mundo antigo foi chamada de Docetismo que vem do Grego “Dokesis” que significa “aparência, aparição”. Esse conceito muito difundido na antiguidade foi considerado perigoso para a expansão da nova religião e, portanto, foi rejeitado e proibido à partir do concilio de Nicéia em 325.

               A apreciação dos fatos históricos citados visa fomentar uma nova percepção sobre o Dharma, não como algo exótico e alheio à tradição espiritual do Ocidente mas sim como algo que foi preservado em outras terras e resgatado nos tempos modernos. Algo que pode trazer vida renovada à um Ocidente que sofre as mazelas de um materialismo embrutecedor e fatal.

               Que Mãe Kali no abençoe à todos.