quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Shri Vinayaki

Shri Vinayaki, 

revelada ao centro da Mandala de todas as Deidades Auspiciosas.





Entre as disciplinas espirituais do Tantra há uma particularmente interessante por suas características – ela é praticada tanto por devotos da Mãe Divina em suas Pujas como por Sadhakas iniciados nas suas práticas reservadas, de forma distinta porém obedecendo ao mesmo conceito. Nela percebemos o caráter não-sectário dos Tantras e sua missão de proporcionar Bhukti (Bem Estar no mundo) e Mukti (Liberação Final) aos seus adeptos.

A prática da “Mandala de Todas as Deidades Auspiciosas” (Sarvato BhadraDevata Mandalam) é feita através de uma representação geométrica, ou seja, de um Yantra, onde 57 princípios cósmicos são relembrados, apreciados e reverenciados através de Mantras que nos sintonizam com aqueles principios. O uso de Yantras é muito comum entre as disciplinas espirituais. Neles cada um dos ângulos, das direções e das posições é residência de um aspecto especifico da Divindade que é revelado numa sequencia própria até chegar ao ponto mais profundo onde o Paradigma Central (Devata) ou a Força espiritual (ParaShakti) do Yantra são revelados.

No caso especifico deste Yantra onde o pavilhão de Deidades Auspiciosas (Sarvato BhadraDevata Mandalam) é adorado quem se revela é Shri Vinayaki, a Shakti, ou seja, a Força Espiritual do Senhor Ganesha. Ela é Aquela que garante o sucesso em todos os empreendimentos através da correta conduta (Vinaya). Este tema é recorrente na devoção à Mãe Divina (Shakta Upasana) e aparece também na adoração às Nove Durgas (Nava Durga) que se iniciam com ShailaPutri, o Alicerce bem-estabelecido, e terminam com SiddhiDhatri, Aquela que garante o Sucesso. Lembremos também que o homem santo, o Sadhu, é aquele que foi bem-sucedido em seus esforços para alcançar a Divindade.

Segue link com um pequeno vídeo devocional baseado em Shri Vinayaki. Que ela abençoe todos aqueles que se esforçam em busca da iniciação à adoração à Mãe Divina. Jaya Maa !


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Datas Auspiciosas de Novembro de 2016


Aspectos Gerais:
Os Adityas responsáveis por esta estação são: Tvastr – o empreendedorismo, a iniciativa para o trabalho. Considerado aquele que garante vida longa e prosperidade; e Savitri – o poder do Verbo Divino e das recitações. O seu Mantra (Gayatri) é aquele recitado antes do nascer do Sol e faz com que um novo dia se inicie. 

Os Adityas são a personificação dos conceitos morais e éticos, nascidos da Grande Deusa Aditi. Eles são 12 ao todo, sempre em pares, um rege a inter-relação entre os homens e o outro rege a relação entre os homens e as formas da Divindade. Eles nos sugerem as virtudes que deveríamos cultivar no período.


Para o seu bem-estar e prosperidade:
Existem dias que são especiais para a realização de disciplinas espirituais pois neles acontecem momentos astrológicos específicos que aumentam os méritos (Punya) adquiridos pelas ações executadas. As ações de gratidão (Puja, Homa e outras) podem ser feitas nestes dias para obter um resultado ainda mais favorável. 

Os devotos que desejam progredir em suas atividades profissionais, familiares e pessoais devem agradecer através da meditação e das ofertas de gratidão (Dravyas). Para aqueles que não possuem interesses com as coisas do mundo, ex. celibatários e monges, o agradecimento pode ser feito apenas recitando os Mantras mentalmente. 

Há cinco dias muito auspiciosos para a celebração do dom da vida (Yajña). Seguem abaixo as datas de Yajña, o ideal de perfeição à ser atingido (Devata) em cada uma dessas datas, as palavras de poder (Mantra) e a oferta de gratidão (Dravya). .

Chaturthi, dia 03 – Dia de remover os obstáculos que para garantir o sucesso em todos os empreendimentos. Mantra:
ॐ गणेशाय नमः  “Om Gaṇeśāya Namaḥ  recitado 108 vezes. Dravya: doces, sucos, frutas, flores vermelhas.  

Saptami, dia 06 – Dia de agradecer pela boa saúde, boa reputação e harmonia. Mantra:
ॐ सूर्यदेवाय नमः  “Om Sūryadevāya Namaḥ”  recitado 108 vezes. Dravya: grãos de arroz, agua fresca, flores vermelhas.

Ashtami, dia 07 – Dia de se fortalecer pra obter alegrias na vida e a Liberação Espiritual (Moksha). Mantra:
ॐ काल्यै नमः  “Om Kālyai Namaḥ” recitado 108 vezes. Dravyas: lamparina de cânfora, agua perfumada com cânfora, flores vermelhas (Hibisco). .

Ekadashi, dia 10 – Dia de lembrar os mais altos ideais: o Yajña e as austeridades espirituais. Mantra:
ॐ विष्णवे नमः  “Om Viṣṇave Namaḥ” recitado 108 vezes. Dravya: folhas de Tulasi (um tipo de manjericão), leite, flores amarelas.

Chaturdashi, dia 13 – Dia de meditar como um benéfico observador de todas as ações. Mantra:
ॐ नमः शिवाय  “Om Namaḥ Śivāya” recitado 108 vezes. Dravya: leite, iogurte natural, folhas de Bilva (Aegle Marmelos), flores brancas.



Para a sua Saúde:

Os três biotipos reconhecidos pelo Ayurveda são Kapha, Pitta e Vata e cada pessoa apresenta uma particular distribuição destes três. Á cada período do ano, de acordo com as mudanças de temperatura, umidade, exposição a luz solar etc ... estes Doshas podem acumular-se, agravar-se ou aliviar-se. Para manter o equilíbrio são recomendados alimentos apropriados e práticas espirituais especificas. Neste mês os Doshas da Medicina Ayurvédica sofrem a seguinte influencia: 

Vata: mantém-se estável. 
Pitta: mantém-se estável.
Kapha: agrava-se, portanto é recomendável evitar alimentos muito salgados e /ou amargos e atitudes que possam gerar  algum tipo de congestão; Deve-se também evitar o sedentarismo.


Para as Sadhanas e práticas inicáticas:
Para os Sadhakas iniciados as escrituras Tantricas dão uma lista de ocasiões auspiciosas para suas disciplinas espirituais.
कृष्णाष्टमीचतुर्द्दश्यावमावास्याथ पूर्णीमा।
संक्रान्तिः पञ्च पर्वाणि तेषु पुण्यदिनेषु च॥ ८॥
kṛṣṇāṣṭamīcaturddaśyāvamāvāsyātha pūrṇīmā |
saṁkrāntiḥ pañca parvāṇi teṣu puṇyadineṣu ca || 8 ||

“ O oitavo, o décimo-quarto e o Amavasya da quinzena escura, a lua cheia, e o dia de transição do Sol entre os signos são as cinco ocasiões auspiciosas para adoração. " 
Kularnava Tantra, capítulo X verso VIII.


Em Novembro de 2016 estes dias auspiciosos serão:


dia 14 - Purnima (Lua cheia);
dia 16 – Sankranti (Sol entra no signo de Scorpio / Escorpião);
dia 20 – Ashtami (oitavo dia da quinzena escura);
.dia 27 – Chaturdashi (décimo-quarto dia da quinzena escura);
dia 28 – Amavasya (“Lua Negra”, a noite mais escura do mês lunar);



Para o Sankalpa, a identificação do local e momento ideal para cada ação:
Mêses Védicos: Karthika - do dia 01 até o dia 28. MrgaShira – à partir do dia 29.




sábado, 22 de outubro de 2016

Sintonia com o Guru








“O Guru é Brahma, o Guru é Vishnu, O Guru é Maheshvara”

Todas as escrituras: os Vedas, os Puranas, os Tantras e Agamas são unanimes na injunção, na orientação espiritual do Senhor Shiva, que todos aqueles que desejam ter uma espiritualidade sadia e obter os frutos da mesma tomem  abrigo junto à um instrutor espiritual, junto à alguém que transmita a força da tradição, ou seja, junto à um(a) Guru. Muito já foi comentado sobre a divina natureza do(a) Guru mas mesmo assim muitos corações ainda possuem duvidas sobre a melhor maneira de orientar a sua espiritualidade e acabam por negligenciar este aspecto primordial da vida espiritual – a iniciação (Diksha) que deve ser recebida de um(a) Guru vivo(a).

Muitas duvidas na decisão de escolher um Guru advém da natureza paradoxal deste. Ao mesmo tempo em que o "cargo que ocupa", ou seja, a função que exerce, é de natureza divina, ele também é um homem (ou uma mulher) encarnado e, portanto, sujeito à todos os compromissos e necessidades relacionados à manutenção de um corpo físico e à interação com os demais cidadãos e membros da sociedade. Para o devoto, às vezes, pode parecer complicado relacionar-se com estes dois aspectos e a escolha do Guru acaba prejudicada pela prioridade dada ao julgamento da vida pessoal em detrimento da apreciação do papel que ele representa na ordem cósmica, ou seja, no Dharma.

Uma palavra nos ajuda à lidar com esta duvida e superar a indecisão: “sintonia”. Tudo aquilo que conhecemos (pessoas, os objetos, os lugares etc) está sujeito à interpretações “objetivas” e “subjetivas”. Podemos compreender o “objeto em si” ou o objeto através de nossa relação com o mesmo. Por exemplo, uma rosa pode ser entendida como “apenas” uma flor ..... ou como o símbolo de um amor profundo e carinhoso. No segundo caso ela é guardada com cuidado e, mesmo depois de seca, nos lembrará do momento precioso no qual a recebemos. A atenção especial dada àquela rosa que foi recebida da pessoa amada, a consagra e lhe garante uma força especial, um poder de evocar lembranças felizes sempre que manuseada. O mesmo acontece com o Guru. É a consagração dada pelo estudante que se aproxima dele e diz: “ Tenho algo a aprender com você” que torna o (antes) homem comum num veiculo para derramar as bençãos de Shiva e preservar o Dharma. É a sintonia que faz com que aquela relação seja algo especial da mesma forma que um aparelho de TV só pode transmitir o noticiário se for sintonizado no canal e no momento correto.

Há uma narrativa ocidental que convida à reflexão sobre este tema de sintonizar-se com o aspecto e função divinas que podem manifestar-se através do homem. Talvez possamos esclarecer melhor este ponto usando como referencia – a relação entre Jesus e seu Guru apresentado nos Evangelhos: São João Batista. A “iniciação nas aguas” (Abhisheka Diksha) dada por São João Batista permitiu que Jesus pudesse seguir em sua missão como um grande "Chrestos", palavra Grega que significa um "ungido", ou seja, um iniciado. Esta narrativa está presente no novo testamento e apresenta detalhes muito interessantes ao ser interpretada sob a perspectiva de um acharya Tantrico. Tanto a palavra “batismo” que vêm do Grego como a palavra “Abhisheka” que vem do Sânscrito, ambas línguas da família Indo-Ariana, remetem à aspersão de aguas num sentido de sacralização. São João Batista batizou Jesus, ou seja, lhe ofereceu Abhisheka Diksha, a iniciação por aspersão de aguas sagradas como aquelas encontradas à beira de todo grande rio, como o rio Jordão que banha aquela região.

Observemos que, ao encontrar Jesus, São João Batista receou por um momento em dar-lhe Diksha pois ele intuitivamente sabia que aquele homem estava destinado a ser um Avatar, uma encarnação, do Preservador do Universo. Segundo os Evangelhos o próprio Jesus lhe cobrou a iniciação pois ele sabia que sem ela nenhuma missão divina pode ser cumprida e a ordem cósmica, o Dharma, não pode ser mantido. Nos Evangelhos também nos é revelado que São João Batista comentou que ele dava a iniciação pelas aguas (Abhisheka Diksha) e que Jesus trazia a iniciação pelo fogo (Yajña Diksha). No Dharma a diferença entre estas iniciações é que a primeira, pelas aguas, tem o caráter de uma expiação (Prayashchitta) que purifica de todo contato com itens e circunstancias ritualisticamente impuras enquanto a segunda, pelo fogo, tem o caráter de uma consagração e rito de passagem (Samskara) como aquela iniciação na qual o garoto recebe o cordão sagrado que o torna um Brahmane atuante na sociedade (YajñoPavita Samskara).

Jesus, o homem, se torna Jesus o Preservador do Dharma após a iniciação dada por seu Guru São João Batista. Jesus primeiro escolhe João Batista como aquele que lhe daria Diksha, então se aproxima dele e o aceita como Guru, consagrando-o através de sua aceitação. Esta é a sintonia da qual falamos, é desta forma que o Dharma se preserva.

Que Mãe Kali nos abençoe.