Todos os anos antes de cada um dos dois festival da Mãe Divina, os dois
NavaRātri-s, que são realizados próximos aos equinócios de Outono e de
Primavera, nós temos um período para expressar nossa gratidão aos nossos
ancestrais. Esse período de uma quinzena é chamado de Pitṣ Pakṣha. Neste ano de
2026 o Pitṛ Pakṣha do Śharada Navarātri* acontece no período de 27 de Setembro
até o dia 10 de Outubro (Āmāvāsya). Durante estes dias relembramos com carinho
nossos ancestrais, meditamos sobre suas vidas e seus anseios e sobre como eles
nos ajudaram à conquistar todos os nossos objetivos e a estar aqui, em
adoração, nos dias de hoje. Vamos rever fotos antigas, lembrar bons momentos e
estórias que nos foram contadas e, quem sabe, preparar alguns pratos que eram
apreciados por nossos avós e bisavós. Reviver nossa história pessoal é prestar
gratidão à todos aqueles que nos antecederam.
Basta uma pequena reflexão
para apreciarmos que tudo o que somos e o que conquistamos foi devido ao
alicerce oferecido por nossos ancestrais. Mesmo uma breve análise do processo
de reencarnação nos releva que nossos corpos, que habitamos nesta vida, não
“surgiram do nada”. Poderíamos dizer que estes corpos foram “emprestados” por
nossos ancestrais e serão (re)transmitidos aos nossos descendentes. Este corpo
que é (re)transmitido à cada geração e que permite a auto-realização de cada
membro das famílias é chamado de Liṅga Śharīra. È através deste Liṅga Śharīra
que recebemos duas importantes heranças Divinas: Bhāga e Aṁśha, que, entre
outros significados, também são personificadas como dois dos doze Ādityas -
filhos da Grande Deusa Aditī. Bhāga é a herança física que pode ser interna ou
externa. Internamente ele (Bhāga) é a nossa força física, nossa imunidade e
outros “dons” manifestados no corpo físico e que foram recebidos de nossos pais
e avós. Externamente ele é o patrimônio e outros bens materiais herdados. Já Aṁśha
é a fração da partilha Divina que nos coube, nossa “sorte”, as bênçãos que
recebemos e o fruto dos méritos espirituais (Puṇya) que nos permitem uma vida
mais harmoniosa.
Uma prática tradicional nestes dias de Pitṛ Pakṣha é oferecer “Tarpanam” aos
nossos ancestrais. Esta pequena cerimônia pode ser feita por todos. Para o
devoto os preparativos são bem simples: basta dispor de um pequeno vasilhame,
tipo um copinho de metal e uma pequena colher. Preencheremos este copinho com
água da fonte mais pura possível, podemos usar água mineral, recitamos então
uma volta (108 vezes) de JapaMālā do Mantra de nosso Iṣṭha Deva, aquele que é o
nosso ideal de Perfeição (Durgā, Gaṇeśha, Kālī, Śhiva, Kṛṣhṇa, etc ...) e à seguir o seguinte Mantra:
ॐ पिता स्वर्गः पिता धर्मः पिता हि परमं तपः ।
पितरि प्रीतिमापन्ने प्रीयन्ते सर्वदेवताः ॥
om pitā svargaḥ pitā dharmaḥ pitā hi paramaṁ tapaḥ |
pitari prītimāpanne prīyante sarvadevatāḥ ||
“Om, meus ancestrais são o meu paraíso. Meus ancestrais são o meu Dharma. Meus
ancestrais são a minha mais elevada austeridade. Meus ancestrais estão
satisfeitos, todos os Deuses estão satisfeitos.“
Então, com a colher, uma pequena quantidade da água consagrada (Tarpanam) é
oferecida sobre o solo ou sobre um pequeno pires de barro. O restante do que
foi preparado pode ser lançado num jardim ou canteiro, ou ainda aos pés de uma
árvore bem frondosa. O Sādhaka, aquele que foi iniciado no Dharma e mantém
disciplinas espirituais regulares, pode oferecer Tarpanam logo após sua Sādhana
diária ou junto com as práticas do Sandhya Vandanam, usando os artigos rituais
condizentes com a situação – Kośha e Kośhi ou outros vasilhames de metal que
sejam apropriados. Lembremos que esta prática é muitíssimo importante para
aqueles que se dedicam a Kapāla Sādhana e outras disciplinas espirituais
semelhantes pois estes Sādhakas são aqueles que “mantém a ancestralidade viva”,
ou seja, cultivam os elevados valores espirituais que construíram a
civilização.
Na noite de 10 de Outubro de 2026 será celebrado o MahāLāya que simboliza a
Grande Dissolução que estava presente em Eras anteriores à criação de cada novo
Universo. Ou seja, temos ali um marco de um novo ciclo que manifesta-se através
do Navarātri.
È só depois deste período de reflexão e de prática de gratidão que a Deusa
é adorada em sua magnífica manifestação como MÃE. Seguindo o calendário
litúrgico teremos então o Navarātri, as nove noites da Deusa, começando no dia 11
de Outubro de 2026.
· Navarātri de Outono na Índia porém é celebrado na primavera do Brasil. O nosso Navaṛātri de outono, que é o principal, é chamado de Chaitra Navarātri.
Jaya Mā, Louvada seja a Mãe do Universo.
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