terça-feira, 28 de julho de 2020

Juramento perante a Verdade


Namaste,

O presidente eleito do Suriname tomou posse no dia 16 de Julho deste ano. Conforme as formalidades comuns à vários Países, lá o chefe de estado também deve prestar juramento evocando à “deus” (em sentido genérico, sem mencionar o nome próprio do mesmo) através das palavras de um texto impresso num livro. A novidade nesta posse é que o presidente optou por jurar perante os Vedas o que trouxe uma diferente perspectiva à um juramento diante do sagrado.

Os Vedas se diferenciam de outros textos sagrados em sua aplicação. Eles não são apenas lidos e submetidos à uma tentativa de interpretação por algum sujeito de terno que desconhece o contexto histórico daquela escritura mas sim recitados em Sânscrito (a língua onde foram originariamente revelados) dentro de uma métrica rígida que preserva o aspecto Mantrico e litúrgico do texto.

Estas peculiaridades já são suficientes para resgatar um pouco de sacralidade de volta à nossas vidas porém ainda estamos distantes do antigo Império Romano onde nossas leis, instituições e noções de direito e legalidade se originaram. Lá os juramentos eram feitos no altar instalado no prédio do senado onde os senadores queimavam incenso diante da estátua da Deusa Nike (que significa “Vitória” e pode ser comparada à Deusa Aparajita que é uma das Avarana Devatas da Mãe Kali).

É claro que estar diante de uma representação da Divindade, devidamente consagrada, vestida e honrada com oferendas e litanias é uma experiência muito mais significativa, e inspiradora da Pura Verdade, do que apreciar a inércia das letras mortas escritas num livro qualquer. Porém lidar com conceitos genéricos, sem identidade ou sequer um nome próprio, é bastante sedutor pois facilita as coisas nivelando-as por baixo. É conveniente que certas reflexões e profundas aspirações do espírito humano sejam contidas e aparadas de forma à manter aqueles que dominam a grande Mídia em sua posição de destaque e liderança, festejando milagres ilusórios e lucrando com suas sessões de descarrego.
                       
Na foto: Deusa Nike.

sábado, 13 de junho de 2020

Sadhana 01: Evitar a Adoração Insipida


 
Sadhana 01: Evitar a Adoração Insípida

O Censo Brasileiro de 2010 aponta a seguinte distribuição religiosa no Pais: 64% se declaram cristãos; 22% protestantes e 2% “espíritas”. As demais religiões apresentam um percentual abaixo destes dois por cento. Esta proporção apresenta variação em relação às estatísticas mundiais daquele ano que apontam: 23% de muçulmanos; 22% de cristãos; 15% de Hindus; 10% de protestantes e 7% de Budistas. Apesar de seu percentual declarado os sacerdotes protestantes usam uma estratégia de controle das grandes Mídias o que faz com que sua influência cultural nas sociedades onde estão presentes seja bem mais extensa do que a sua representatividade e que as crenças peculiares daquele grupo formem uma espécie de senso comum de religiosidade.

Nos nossos dias este “senso comum” televisivo, transmitido constantemente, cria inúmeras distorções na apreciação dos fenômenos religiosos e de espiritualidade e pode vir à fomentar incompreensão ou, até mesmo, discriminação de práticas fora da padronização imposta. Uma distorção bastante evidente é a questão da adoração insípida, ou seja, a perspectiva de que a Divindade só pode ser adorada de mãos vazias e através de improvisação verbal. Essa adoração insípida se mostra como uma anomalia no fenômeno religioso que se manifesta principalmente nas agremiações protestantes. Outras religiosidades abominam a adoração insípida e fazem oferendas generosas de tudo aquilo que se origina da Divindade e que, portanto, é retornado à Ela em gratidão. Água, flores, frutas, incenso, lamparinas e velas são artigos costumeiramente presentes em locais onde há amor pela Divindade.

Conceitos distorcidos e ignorância só podem ser superados mediante clara exposição e orientação vinda daqueles que possuem o conhecimento e, neste sentido, apresentamos um pequeno texto com referencias escriturais para auxiliar os Sadhakas à educar aqueles que ainda não entendem a importância da generosa adoração e a oferta de elementos físicos em gratidão pela opulência que a Divindade manifesta no mundo à nossa volta.

Pode causar alguma estranheza que as referencias escriturais citadas sejam da Torah oriunda da tradição Judaica. Entretanto isso se deve ao fato de que embora os protestantes aleguem serem cristãos, ou seja, “filhos da Boa Nova” vinda através dos evangelhos eles raramente os citam e baseiam muitas de suas crendices numa compreensão parcial e deficitária da Torah. Os cristãos, por sua vez, categorizam suas referencias escriturais como antigo testamento e novo testamento sendo o primeiro composto de muitos textos da Torah e o segundo os evangelhos que justificam práticas litúrgicas cristãs como a comunhão durante as missas e a aplicação dos sacramentos.

Segue abaixo um convite à reflexão baseado em sete referencias escriturais que demonstram liturgias e práticas rituais presentes no antigo testamento e que são ignoradas por muitos daqueles que questionam elementos das Sadhanas das religiões baseadas no Dharma. Junto à cada citação foi acrescentado o seu correspondente no Dharma que foi preservado e é praticado até nossos dias.


01.   “Não se apresentará ninguém diante de mim com as mãos vazias.” 
Exodo 23:15
 
Comentário: Este versículo do livro Êxodo 23 resume o conteúdo tratado no capitulo e instrui que a presença diante da Divindade só é permitida com o alimento prescrito (que chamamos de Naivedyam e, neste caso, é o Chapati – pão sem fermento). Este trecho reafirma o que foi detalhadamente expresso em Deuteronômio 16:16. Vamos à ele.


02.   “Três vezes por ano todos os homens se apresentarão à seu deus (entre os judeus era o deus Jeová), no local que ele escolher (ou seja em seu templo especifico), por ocasião: (1) da festa dos pães sem fermento (o Chapati), (2) da festa das semanas e (3) da festa das cabanas. Nenhum deles deverá apresentar-se à Divindade de mãos vazias.
Deuteronômio 16:16

Comentário: Este trecho previne sobre a avareza e irreverência que caracterizam a prática da adoração insípida. Podemos observar que apresentar-se de mãos vazias perante a Divindade é apenas um disfarce para a avareza espiritual que impede a expressão sincera de gratidão. Somente os homens fortes e seguros de sua fé podem ser generosos sem receio pois sabem que o óleo de suas lamparinas não lhes faltará em suas cozinhas.


03.   “Arão fará queimar incenso aromático (Dhupam) sobre o altar (Vedika) todas as manhãs (primeiro momento do Sandhya Vandanam), assim que vier cuidar das lamparinas (Dipam).”
Êxodo 30:7

Comentário: Arão demonstra seguir os preceitos indicados ao bom devoto, ou seja, oferecer ao menos um Arati (oferta de lamparina de óleo e incenso) diante do altar no momento mais oportuno - o primeiro horário da manhã. 

 
04.   “Trarás à casa do Senhor, teu Deus (ou seja, seu Ishta Devata), as primícias dos primeiros frutos de tua terra.”
Êxodo 23:19

Comentário: Claramente o texto não menciona moedas ou dinheiro mas sim alimento (Naivedyam) para freqüentar o Templo (Mandiram) da Deidade. Portanto uma possível alegação de que o dizimo substituiria a oferta real e verdadeira de artigos físicos não se justifica.


05.   “Três vezes por ano Salomão oferecia holocaustos (Yajñas) e sacrifícios de paz (Shanti Karma) e comunhão sobre o altar que erguera a sua Deidade e queimava incensos puros e perfumados (Dhupam) diante da Divindade.
Reis 9:25

Comentário: A palavra “Holocausto” é de origem Grega e significa “Holo” – completo, por inteiro; “Causto” – queimado, ou seja, aquilo que é completamente queimado em oferecimento à Divindade. Isso é feito nas cerimônias de fogo praticadas no Dharma, estes ritos recebem diferentes denominações conforme a complexidade envolvida: AgniHotra, Homa, Havana ou Yajña. A oferenda (Dravya) completamente queimada significa o desprendimento (Tyaga) e absoluta confiança do devoto diante de seu Ishta Devata, a forma da Divindade que habita em seu coração.


06.   “Todo o seu ganho será destinado para os que vivem na presença da Divindade (ou seja, os Pujaris/Brahmanes que vivem em seu Templo), a fim de que tenham bastante suprimento, bons alimentos (Bhoga) e até roupas finas (Vastram).”
Isaias 23:18

Comentário: É dever do Grhasta (aquele que mantém uma casa) ajudar á manter os Templos das várias formas da Divindade. Entre as ofertas prescritas para a manutenção das atividades dos Templos locais estão alimentos e até roupas de uso sacerdotal como Dhotis e Sáris para suprir as necessidades daqueles que se dedicam exclusivamente ao serviço do próximo através da intercessão das forças divinas.


07.   Em Êxodo 37 temos uma detalhada descrição da instalação de um verdadeiro altar dentro da tradição da Torah que não é um palco para a encenação de um sacerdote mas sim um local para apresentar oferendas de gratidão.   

   “Fez também dois querubins de ouro; de obra batida os fez, nas duas extremidades do propiciatório.”
Êxodo 37:7

Comentário: As Murtis (estátuas consagradas) instaladas no altar são descritas neste versículo.

    “E fez de ouro puro os utensílios que haviam de estar sobre a mesa, os seus pratos e as suas colheres (este conjunto é chamado de Puja Thali), e as suas tigelas e as suas taças (chamados de Patrani, plural de “Patra” - vasilhames) em que se haviam de oferecer libações (chamadas de Tarpanam e Abhishekam).”
Êxodo 37:16  

"Também fez o azeite santo da unção (Gandham), e o incenso aromático (Dhupam), puro, qual obra do perfumista.
Êxodo 37:29

Comentário: O Dharma que mantém de forma integra e legitima as tradições sagradas da antiguidade pratica a unção (Lepanam) com o óleo perfumado ou Attar (Gandham) e queima diariamente o incenso (Dhupam) em seus altares.

terça-feira, 24 de março de 2020

Quarentena entre os Deuses



Gostaríamos de partilhar uma bela narrativa do Templo de Senhor Jagannatha em Puri – Índia. Este é o maior Templo do Senhor Jagannatha no mundo e certamente é o mais tradicional entre os Vaishnavas.

Todos os anos, antes do Festival do Ratha Yatra, o Senhor Jagannatha adoece. Vamos entender as parábolas (simbologia) desta narrativa.

Na Lua cheia após o auge do verão o Senhor Jagannatha recebe um banho ritual (Abhisheka) de 108 potes de agua consagrados (Kalashas). Este ritual chamado de Snana Purnima visa “refrescar” as energias (Shakti) emanadas do Senhor. Após este grande Abhisheka as Deidades são colocadas em quarentena pelos 15 dias da quinzena lunar escura (Krishna Paksha) se sucede a Lua cheia.

Neste período as Deidades do Templo não recebem oferendas de alimento sólido, apenas o extrato de várias folhas e raízes medicinais (Sarva Oshadhi) para intensificar a percepção dos devotos de suas energias espirituais (Shakti). Nenhum devoto pode visitar o Templo e ter o Darshana neste período. Após a “quarentena” o Senhor Jagannatha ressurge em seu total esplendor e começa o Festival do Ratra Yatra onde as sagradas Murtis são levadas as ruas para que todos tenham a misericórdia de receber bênçãos mesmo sem ir ao Templo.

Este calendário litúrgico é seguido à milhares de anos e influenciou o culto de vários outros Deuses que também se afastaram por um período, as vezes de 40 dias, e se isolaram ou foram para o deserto ser “tentados” e retornar vitoriosos para abençoar seus devotos.

Pela primeira vez na história deste ciclo da humanidade (Kali Yuga) estamos vivenciando uma quarentena mundial e após os eventos previstos nas escrituras retornaremos preparados para uma Nova Era alicerçada no Dharma, ou seja, em equilíbrio com a natureza. Que Mãe Kali, a Mãe do Universo, nos abençoe à todos. 

Jaya Maa.