domingo, 12 de fevereiro de 2017

Pureza Ritual, Prayashchitta e Kshamapanam


Pureza Ritual, Prayashchitta e Kshamapana

Quanto a sua regularidade os ritos podem ser classificados em três aspectos: Nitya – aqueles que são expressão de nossa devoção e que refletem nosso estilo de vida e, portanto, devem ser realizados diariamente, Naimittika – aqueles que são realizados em ocasiões especiais e formam um alicerce para a consecução das atividades em questão e Kamya – aqueles que são realizados apenas para conquistar um objetivo especifico. Em todos estes a pureza ritual é um fator importante pois ela interfere diretamente nos resultados que serão obtidos da mesma maneira que os critérios de higiene adotados por um cirurgião influenciam diretamente o risco de infecções hospitalares e uma eventual falha no tratamento.

A purificação inadequada no caso de um rito Nitya pode produzir a associação com forças alheias á natureza do rito (Dosha), ou seja, o devoto acha que está adorando e se relacionando com uma Deidade e, na verdade, está apenas alimentando forças ilusórias. Várias tradições espirituais reconhecem a possibilidade de que um “obsessor”/”demônio” venha à se passar por  um Ser elevado e se aproprie de suas oferendas. Os Kriyas, os atos rituais, que evitam este risco são: a purificação do espaço do rito (Dvara Puja, Bhumi Puja...) e a clara identificação do destinatário das oferendas (recitação do Dhyanam e, portanto, a criação de uma clara visualização da Deidade e a recitação do respectivo Gayatri Mantra, ou seja, a compreensão da Deidade em seus três momentos distintos).

No caso de um rito Naimittika a impureza (Chidram) pode reduzir o resultado alcançado da mesma forma que um alicerce mal feito reduz a resistência de uma construção. Ritos importantes como a  consagração de uma representação da Divindade (Prana Pratishtha) ou uma iniciação (Diksha) precisam de ritos auxiliares (Anga Kriyas) para que todos os aspectos relevantes sejam alcançados – não basta que o novo iniciado seja veiculo das forças evocadas (que é o foco da iniciação), ele deve também ter uma vida equilibrada, com saúde e sucesso (Siddhi) em suas aspirações.

Num rito Kamya o cuidado com a purificação prévia deve ser ainda mais criterioso. Uma eventual impureza (Dosha/Chidram) pode levar a resultados opostos àqueles esperados. A narrativa da vingança da Asuri Diti contra o Deus Indra (vide Agni Purana XIX) é um alerta à este risco:
“ Nas inúmeras batalhas dos Devas contra os Asuras ocorreram várias perdas. Diti, uma Asuri, era a mãe de muitos Asuras que foram vencidos por Indra e, magoada, ela montou um plano de vingança. Ela propiciou o sábio (Rshi) Kashyapa para que tivesse um filho que se tornaria o destruidor de Indra. Então, após muitas disciplinas espirituais (Tapasya) ela engravidou ...... Entretanto ela foi negligente em suas purificações prévias e, aproveitando-se desta falha, Indra obteve acesso ao seu ventre e lá desalojou o futuro filho e o transformou nos 49 Maruts que tornaram-se seus assistentes.” Ou seja, o resultado obtido por Diti foi o oposto daquele que foi desejado devido à sua desatenção nas purificações necessárias.

A correção de eventuais falhas rituais é feita através de um procedimento chamado “Prayashchitta” (“expiação”). Nele o devoto vai ao principal fundamento de uma prática, à própria raiz dela, e lá tenta corrigir eventuais falhas. Um exemplo muitíssimo comum, embora pouco compreendido pode ilustrar essa prática: no rito de AgniHotra o adepto recita dois Mantras – para Surya durante o dia ou para Agni Deva durante a noite e após estes Mantras ele oferece uma oblação de ghee à Prajapati. Esta oblação é um Prayashchitta feito para superar eventuais falhas na oblação anterior (à Surya Deva ou à Agni Deva). Mas ...... Por que ? Prajapati foi quem estabeleceu todos os Yajñas, todos os ritos, inclusive o AgniHotra, e a oblação feita à ele é uma generosa lembrança para agradece-lo pelo privilégio de participar diretamente na obra da criação. O conhecimento adequado (Jñana) associado a vontade sincera (Iccha) e a ação que os reafirma (Kriya) geram os méritos que purificam todo o AgniHotra através do Mantra e oblação de Prajapati.

A prática do Prayashchitta tem uma expressão muito comum que é a recitação do Kshamapana, a obtenção da competência. Esta recitação pode ser tão complexa quanto um hino (Stotra) ou tão simples quanto um pequeno verso (Shloka). Para o devoto dualista está prática é vista como um “pedido de perdão à Divindade” pelos eventuais erros, para o adepto não-dualista (Advaita) ela é vista como a reflexão de que todos os aspectos relevantes de sua ação não puderam ser deixados explícitos, ou por falta de tempo, de recursos ou de conhecimento. Mas, em ambas as perspectivas a prática é idêntica. Esta é mais uma bela característica do Dharma – embora sob perspectivas diferentes todos se envolvem nas mesmas ações. Jaya Maa.





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