terça-feira, 5 de março de 2019

Etiqueta básica em Templos


               Muitos interessados no Dharma gostariam de visitar um Templo que siga as prescrições tradicionais mas sentem-se desconfortáveis com a possibilidade de “cometer alguma gaffe”. Este pequeno guia traz algumas dicas para a sua visita.

               Alguns cuidados são relevantes para todos.
               Os Templos são a residência de formas especificas da Divindade e os devotos vão lá para ter o Darshana, ou seja, a visão espiritual, destas formas. Portanto não vá aos Templos de mãos vazias. Flores, frutas, um saco de arroz cru, uma caixinha de leite ou de canfora são itens sempre usados e benvindos.
               Use roupas confortáveis mas que mantenham o devido decoro, lembre-se que talvez tenha que sentar-se no chão durante algum tempo. As meias devem estar limpas. Os sapatos serão tirados nos locais onde acontecem as cerimônias. Evite apontar as solas dos pés em direção às representações da Divindade.
               Diante da representação da Divindade evite conversas vãs, muitos estarão ali para recitar silenciosamente os Mantras de sua Sadhana e interferências devem ser evitadas.
               Em várias tradições as Deidades são adoradas com Mantras específicos que o leigo não teve acesso, portanto se desejar uma Puja ou qualquer outro ritual solicite a presença de um Pujari autorizado que saberá quais Mantras usar.

               Além do que se aplica à todos podemos comentar sobre a etiqueta de boa conduta entre os membros da família espiritual (ou aqueles interessados em sê-lo).
               Há muita coisa à se fazer num local de adoração. Ofereça-se como voluntário para auxiliar no que for necessário. Este serviço devocional voluntário é chamado de Seva e é essencial para manter o bom andamento das atividades. Varrer o local, limpar os metais do altar, fazer os arranjos de flores ou ajudar a servir a Prasada aos visitantes são atividades que podem ser feitas por todos e não desmerecem ninguém ao fazê-lo.


No vídeo: Pujaris (sacerdotes) do Templo de MahaKaleshvara (uma das formas do Senhor Shiva) limpam o Garbha Grha (Sanctum Santorum do Templo) antes da Puja.
              



domingo, 3 de março de 2019

Maha Shiva Ratri


               O MahaShivaRatri, ou seja, “a Grande Noite de Shiva” é o maior festival anual dedicado ao Senhor Shiva. Há festivais menores celebrados mensalmente, estes são conhecidos apenas como “ShivaRatri”. Todo ShivaRatri acontece numa única noite que é a décima quarta noite (Chaturdashi) da quinzena escura (Krishna Paksha) de cada mês lunar. Esta noite precede a noite do Amavasya (Lua Negra, Lua Nova) que é o momento astrológico de conjunção da Lua (Senhor Shiva) com o Sol (Shakti, a Deusa). Este momento do ciclo lunar mensal é belamente narrado nas escrituras Pauranikas (Puranas) como o “casamento” de Shiva e Parvati que naturalmente antecede a sua “união” da noite seguinte. O MahaShivaRatri é celebrado no mês Védico de Magha.

               O festival de MahaShivaRatri é uma Naimittika Puja, ou seja, uma celebração, uma Puja, feita fora dos padrões rotineiros. Esta outra é chamada de Nitya Puja, ou seja, uma Puja de rotina. O que transforma uma data qualquer em uma data de festival é a nossa conexão, o nosso alinhamento com os motivos daquela celebração da mesma forma que a data da celebração das Bodas de Prata (25 anos de casamento) do senhor e senhora Albuquerque só são significativos para as suas famílias e amigos. É o nosso poder espiritual de consagração que torna momentos, pessoas ou objetos especiais. O festival só acontece para aqueles que agem e tornam aquele dia um dia diferente; um Guru só está presente para aqueles que consagraram um homem ou mulher comuns como representantes de Shiva e Shakti; uma estátua só deixa de ser um mero objeto de decoração e torna-se uma Murti (materialização da Divindade) entre aqueles que dedicaram a ela seu carinho especial através dos ritos prescritos.

               A maneira mais simples de festejar o MahaShivaRatri é recitar o Panchakshara Mantra (Mantra de cinco silabas) do Senhor Shiva – NamaH Shivaya. Para aqueles devotos que já o fazem diariamente há a opção de aumentar o numero de repetições ou realizar as Pujas e Abhishekas que já sabem como fazer. O momento de um festival não é adequado para “testar” a realização de uma Puja ou qualquer outro procedimento que já não seja conhecido. Este aprendizado e familiarização devem ser feitos previamente em momento oportuno e sob orientação adequada.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Puja e os cinco sentidos


Devota realiza Puja com essência, flores, incenso, lamparinas e alimentos. (Panchopachara Puja)



Namaste amigos,

Para viver o Dharma, ou seja, usufruir de seus frutos em nossas vidas devemos praticá-lo. Não é apenas a leitura de textos que demonstra a nossa gratidão as Deidades. È a prática devidamente orientada que traz à vida as divinas opulências e abre nossos corações à Força Espiritual da Divindade.

“... nos fez também capazes de ser sacerdotes de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito, porque a letra mata e o espírito vivifica.”
São Paulo, em sua carta aos Gregos da cidade de Corinto.
II Coríntios, III, verso 6.

A Guru Shree Maa do Templo Devi Mandir afirma: “Cada casa é um Templo e os seus ocupantes são os sacerdotes”.

Ora, a primeira pergunta que nos vem à mente é: “O que fazem os sacerdotes ?”, “Será que eles passam os dias apenas lendo livros ?”. De forma alguma ! Os sacerdotes praticam suas disciplinas espirituais, suas Sadhanas para concentrar a sua Força Espiritual, a sua Shakti.  Então, fazem os rituais externos (Bahya Puja) que expandem a Shakti acumulada e inundam o mundo com suas bênçãos. Seguir o Dharma é estar espiritualmente vivo, ou seja, concentrar e expandir, como o fazem todos os organismos vivos.


Ler repetidamente um mesmo livro não gera nenhum fruto se não houver prática.


O Dharma é um estilo de vida baseado numa lógica muito profunda que leva em consideração vários elementos sutis que não são normalmente percebidos pela maioria dos homens. Para praticar adequadamente o Dharma devemos superar superstições e crendices muito comuns como aquela que alega que a Divindade não poderia ser adorada através de suas Divinas representações, suas Murtis.

“Da mesma forma que o leite é produzido através de elementos do corpo inteiro de uma vaca porém só é extraído através de suas tetas, o Supremo Atman, apesar de omnipresente, só se manifesta através das representações da Divindade, ou seja, das suas Murtis.”
Mantra Yoga Samhita

Os vícios de caráter também devem ser superados para ter uma vida harmoniosa e uma espiritualidade sadia. A avareza, por exemplo, alimenta a crendice de que a adoração insípida seria agradável à Divindade pois ali não há custos e nenhum dinheiro é gasto. Adoração insípida é aquela onde não há nenhuma gratidão pela opulência recebida, é aquela onde o devoto se apresenta de mãos vazias esquecendo-se de que tudo o que existe veio da Divina Mãe do Universo. Ali não há lamparinas (ou velas), não há incenso, não há alimentos ...... não há nada além de soberba e encenação.

“o jesus saiu e ocultou-se deles ...”. verso 36
“Cegou os seus olhos e endureceu seus corações, de modo que não enxergam com os olhos e não entendem com o coração”. verso 40
Evangelho do apóstolo São João XII.

As opulências da Divindade são percebidas através do auxilio dos nossos sentidos. É a nossa visão encantada pelo brilho dourado da lamparina que nos lembra da Divindade. É o nosso olfato embriagado pelo aroma do incenso que nos lembra que a Divindade está em todos os lugares. É o nosso paladar saudoso dos sabores esplendidos das frutas e alimentos sobre o altar que nos remete à alegria de saber que a divindade está sempre próxima à nós. O altar vazio cega os olhos, entope nossas narinas e corta nossas línguas nos tornando mortos-vivos incapazes de entender que a Divindade está em todos os lugares.


Cena de filme: morto-vivo ajoelhado mas nada muda ao seu redor. 

Antes de qualquer disciplina espiritual, de qualquer Sadhana, consagre aquele momento para que se torne um momento especial. Algumas dicas podem ajudar bastante. Todas estas podem ser acompanhados de Mantras específicos usados nestas ocasiões, estes Mantras podem ser aprendidos direto de seus Gurus.

1. Tome um banho antes de começar. Mesmo uma simples recitação de Mantras adquire uma nova energia com um banho prévio. Caso um banho não seja oportuno, lavar o rosto é aconselhável.
2. Logo no começo de sua disciplina acenda uma lamparina de ghee, de óleo ou uma vela. Faça isso mesmo em rituais feitos durante o dia. Tenha também uma vareta acesa de um incenso de boa qualidade.
3. A presença de algum alimento no local onde se recita Mantras é sempre muito auspiciosa. A maneira mais simples de fazê-lo é ter uma pequena bandeja de frutas, ou até mesmo apenas uma fruta. Há regras especiais para a presença de alimentos cozidos no altar, caso não conheça esses detalhes é melhor deixar este procedimento para quando estiver mais experiente. Ao final da prática pode consumir os alimentos ou distribuí-los entre aqueles que lhe são queridos.

Jaya Maa.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Antes de tomar abrigo espiritual no Templo de Kali





Namaste amigos,

Seguem abaixo sete perguntas e respostas que esclarecem um pouco do trabalho do Templo de Kali e visam ajudar e orientar aqueles que buscam tomar abrigo espiritual nesta família. Ao final deste texto há links para as referencias escriturais, em Sânscrito e Português, ligadas à iniciação Tântrica

Quaisquer duvidas é só perguntar em ruderananda@kaulatantra.org . Sejam bem-vindos.


1. Tenho devoção à Mãe Kali mas não há um Templo em minha região. O que fazer ?

Esta duvida é bastante comum e reflete um pensamento baseado em conceitos Ocidentais de relacionamento com a Divindade. Vamos entender um pouco melhor o que é o Dharma Tântrico para, então, refletir sobre a eventual necessidade de Templos.

Primeiro, um Tântrico não é aquele que tem uma “fé”, na verdade o Guru não pede que o adepto “acredite” em nada. O trabalho do Guru é transmitir a Força Espiritual da tradição (ShaktiPata) e orientar as disciplinas que purificam a mente e farão o adepto vivenciar as realidades de um plano sutil. Esta vivência pessoal, baseada em resultados, é que forma a base das crenças de cada adepto.

चित्ते शुद्धे महेशानि ब्रह्मज्ञानं प्रजयते 
citte śuddhe maheśāni brahmajñānaṁ prajayate   |

“Ó Grande Senhora, na consciência (Citta) pura o conhecimento de Brahman se entroniza”.
MahaNirvana Tantra VII, verso 94

Podemos, portanto, perceber que para ser um Tantrico não é necessário ter um Templo próximo pois a maioria das disciplinas espirituais (das Sadhanas) que visam purificar a mente podem ser realizadas em casa. O que é absolutamente necessário é consagrar um Guru vivo em seu coração para, então, receber os Mantras que constituirão a sua Sadhana.


2. No que consiste exatamente esta Sadhana Tantrica ?

A Sadhana envolve vários elementos que também visam harmonizar a vida do Sadhaka (Dharma), garantir-lhe boa sorte (Artha) e a satisfação de seus anseios legitimos (Kama). Na medida em que o adepto torna-se capaz de estabelecer uma rotina que permita lidar com intensas e poderosas Forças Espirituais mais elementos são adicionados para que ele se estabeleça no caminho espiritual de NiVrtti.

Há dois “momentos” cruciais na jornada de cada alma:
a. o momento de PraVrtti quando a alma busca alcançar o dominio do plano material e envolve-se cada vez mais no Samsara, ou seja, no ciclo de reencarnações sucessivas. Este é um “caminho de descida”.
b. o momento de NiVrtti quando a alma começa a se desapegar das coisas materiais e passa à buscar Moksha – a Liberação Final, ou seja, o retorno à um estado de absoluta união com a Divindade. Este é um “caminho de ascensão”.

Pela misericórdia do Senhor Shiva os Tantras apresentam estágios sucessivos para atender as almas em distintos momentos de sua jornada. Estes estágios sucessivos são: Vedikachara > Vaishnavachara > Shaivachara > Dakshinachara > Vamachara > Siddhantachara > Kaulachara. Vide Kularnava Tantra II, versos 7 e 8.


3. As Sadhanas Tantricas no caminho de NiVrtti estão associadas à ascensão de Kundalini ?

Sim. A manifestação no mundo está ligada à um processo de “descida” e densificação das energias divinas. O elemento Akasha dá origem ao elemento Vayu (Ar) que, por sua vez, dá origem ao elemento Agni (Fogo) e aos elementos Apas (Agua) e Prthivi (Terra) sucessivamente. Já na ascensão de Kundalini estes elementos são reabsorvidos naquele que os precedeu. Prthivi (Terra) é dissolvida em Apas (Agua) e assim sucessivamente. Por ser um processo de dissolução e destruição a ascensão de Kundalini é chamada de Laya Yoga (o Yoga da Dissolução).


4. Há perigos neste processo de ascensão de Kundalini ?

Quando bem orientado e bem disciplinado o adepto Tantrico não corre risco algum. Uma pessoa “surta” durante o processo de ascensão e estabelecimento de Kundalini nos Chakras mais elevados quando não foi devidamente orientada e está iludida por falsas perspectivas e fantasias fora da realidade.

Os Tantras propõem um Dharma absolutamente lógico e bem estabelecido, não há justificativa ali para fantasiar ou tentar subverter a realidade do mundo aos nossos caprichos. Podemos, por exemplo, sem exageros, tentar comentar o processo de ascensão de Kundalini numa analogia às três primeiras leis de Newton.

Primeira lei – Inércia: “Quando as forças atuantes em um corpo se anulam, ele permanecerá em repouso...”, ou seja, enquanto os “sopros vitais” Prana e Apana estiverem em equilíbrio Kundalini manterá seu repouso no Muladhara Chakra. A ascensão inicia-se quando um desequilíbrio temporário é criado.

Segunda lei – Força Resultante: “A força resultante que atua sobre um corpo é proporcional ....”, ou seja, a intensidade e velocidade da ascensão de Kundalini serão proporcionais à ShaktiPat e Sadhanas aplicadas para iniciar seu movimento. Há um jogo de forças sutis que deve ser levado em consideração durante todo este processo.

Terceira lei – Ação e Reação: “Para toda ação (força) sobre um objeto existirá uma reação (força) de mesmo valor e direção, mas com sentido oposto”, ou seja, no processo de ascensão há obstáculos que criam uma “espécie de atrito”. Como sabemos o atrito gera calor. A palavra “Tapasya” em Sânscrito está relacionada à todas as disciplinas espirituais porém lembremos que seu significado original é “aquilo que é resultado do calor gerado”. “Tapas” é calor ... Entendemos que a ascensão de Kundalini é uma das mais elevadas expressões de Tapasya.


5. Entendemos que a Sadhana envolve o trabalho com energias (Shaktis) que são reais e atuantes. Há também um trabalho sobre o aspecto psicológico e humano do adepto ?

Sim. Desde os princípios estabelecidos no Samkhya e no Yoga Darshanas e reafirmados na Bhagavad Gita sabemos que as atividades da mente (Manas) são influenciadas por vários aspectos físicos como alimentação, rotina, ações e etc. Os Tantras trabalham sobre a mente humana não apenas através de reflexões filosóficas ou dialéticas mas através de todo o seu ser – sua “fala”, suas atitudes e, principalmente, suas ações.

No campo da “fala” o adepto é ensinado à perceber os três principais níveis de comunicação (“Fala”) – Pashyanti, Madhyama e Vaikhari, ou seja, através de uma “ressonância inarticulada”, através de uma “ressonância articulada” e através de uma vibração audível, respectivamente. Além destes há a comunicação em Para que é realizada em um plano puramente Divino.

No campo das atitudes o adepto deve superar os obstáculos do Muladhara Chakra para preparar-se para o processo de ascensão de Kundalini. Este Chakra é guardado pelo Senhor Ganesha cujo nome significa “O Senhor daquilo que pode ser contado”, ou seja, o “Senhor das categorias ou classes”. O termo “Gana” vêm da raiz Gan/गण् (verbo GaN/GaNavati) que significa contar, atribuir valor. Superar este primeiro obstáculo traz como desafio deixar de ver à Si-mesmo como uma categoria ou membro de uma classe para entender-se como um individuo – único. 
Vide Kularnava Tantra XII, versos 90 e 91.

No campo das ações o adepto desenvolve a percepção da importância das ações rotineiras (Nitya Sadhana) e das ações sazonais (Naimittika Sadhanas). A ascenção de Kundalini, assim como todo processo dinâmico, necessita de uma base estática para garantir estabilidade à força gerada. Há dois "momentos" necessários ao progresso. Estes dois momentos, estas duas importantes vias de ação, foram descritas em outros sistemas como “Solve et Coagula”, “Amor e Vontade” etc ...


6. O Guru é essencial nos Tantras como identificar um Guru fidedigno ?

O Kularnavana Tantra em seu capitulo XIV, versos 25 e 26 afirma:

“O interessado deveria tornar-se um Shishya (discípulo/aluno) apenas após perceber o conhecimento e expertise do Guru em Japa (recitação de Mantras), Stotra (recitação de hinos rituais), Dhyanam (técnicas de meditação), Homa (realização de cerimônias de fogo), Puja (realização de rituais) e outros. Depois de reconhecer  a capacidade de transmissão de conhecimento, a perfeição na ciência dos Mantras e a habilidade de gerar impacto espiritual (Vedha) o interessado pode tornar-se um discípulo/aluno”.


7. Quais são os diferentes tipos de Guru ?

प्रेरकः सूचकश्चैव वचकी दर्शकस्तथा 
शिक्षको बोधकश्चैव षडेते गुरुवः स्मृताः 
prerakaḥ sūcakaścaiva vacakī darśakastathā   |
śikṣako bodhakaścaiva ṣaḍete guruvaḥ smṛtāḥ   ||

“Os Gurus são de seis tipos: Preraka, Suchaka, Vachaka, Darshaka, Shikshaka e Bodhaka”. Kularnava Tantra XIII, verso 128

Preraka é o Guru que incita o aluno à ação adequada.
Suchaka é o Guru que aponta qual é a ação adequada.
Vachaka é o Guru que menciona qual é a ação adequada.
Darshaka é o Guru que demonstra qual é a ação adequada.
Shikshaka é o Guru que orienta e explica a realização da ação adequada.
Bodhaka é o Guru que compreende à fundo a ação adequada.

Ou seja, o Guru pode orientar seus alunos de seis maneiras diferentes. Há aqueles que preferem uma metodologia e aqueles que preferem outras. O mais importante é entender que o Guru não é o homem através do qual Shiva se manifesta como orientador da mesma forma que a Divindade não é a estátua através da qual Ela é representada. Nem tampouco os Mantras são apenas um conjunto de sílabas ...... Manter este tipo de pensamento impede o progresso na via Tantrica.

Jaya Maa.

Por favor visite também os textos com referencias escriturais sobre as iniciações Tântricas:
Texto 2: http://www.kaulatantra.com.br/2013/03/iniciacao-tantrica-parte-2.html






terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Ame o seu próprio Dharma (SvaDharma)



Um dos aspectos essenciais da vida espiritual é ser sincero, ou seja, estar alicerçado na Verdade e saber evitar fantasias e auto-ilusões. A nossa “natureza intrínseca” não é mutável ou caprichosa. Ela é estável e plena, apta em todos os sentidos para a nossa realização e felicidade. Não se pode ser feliz sendo uma pessoa pela manhã e outra completamente diferente a noite da mesma forma que não se pode seguir um Dharma pela manhã e outro a noite. Aqueles que seguem um Dharma Vaishnava serão felizes e realizados sendo Vaishnavas, o Tântrico será feliz e realizado seguindo as injunções de seu Dharma e assim por diante. Todos são felizes sendo o que verdadeiramente são.

O MahaNirvana Tantra comenta:

सत्यधर्मं समाश्रित्य यत्कर्म कुरुते नरः 
तदेव सफलं कर्म सत्यं जानीहि सुव्रते  -७४॥
satyadharmaṁ samāśritya yatkarma kurute naraḥ   |
tadeva saphalaṁ karma satyaṁ jānīhi suvrate   || 4-74 ||

“ Oh Deusa Virtuosa, esteja certa de que quaisquer ações que o homem execute num Dharma Verdadeiro (SatyaDharma) trarão frutos.”
MahaNirvana Tantra IV, verso 74

Um Dharma não é uma escolha caprichosa de elementos distintos, muitas vezes incompátiveis, feita apenas para satisfazer inseguranças ou para ostentar supostas virtudes. Um Dharma é algo pleno, algo que faz sentido e está logicamente estabelecido para gerar os resultados desejados. Num Dharma estabelecido, ou seja, num estilo de vida consistente, todos os elementos são harmoniosos entre si e não há antagonismos ou contradições. Não se pode ser vegetariano de dia e jantar numa churrascaria ...... Da mesma forma, não se pode ter uma devoção doce pela manhã e frequentar campos crematórios (ou cemitérios) a noite. Na vida espiritual não podemos mentir para nós mesmos, ou fantasiar justificativas para nossos caprichos.

A Bhagavad Gita comenta:

श्रेयान्स्वधर्मो विगुणः परधर्मात्स्वनुष्ठितात्
स्वधर्मे निधनं श्रेयः परधर्मो भयावहः -३५॥
śreyānsvadharmo viguṇaḥ paradharmātsvanuṣṭhitāt  |
svadharme nidhanaṁ śreyaḥ paradharmo bhayāvahaḥ  || 3-35||

“E melhor seguir o seu próprio Dharma (SvaDharma) mesmo que de maneira imperfeita do que seguir o Dharma dos outros de forma integral. E preferivel estar centrado em si-mesmo (Nidhana), no seu próprio Dharma. O Dharma dos outros produz apreensão.”
Bhagavad Gita III, verso 35





Um Dharma pode ser também entendido como uma linha de ação, uma estratégia de atuar no mundo. Um cirurgião, por exemplo, segue determinadas prescrições para realizar seu trabalho com segurança e qualidade. Um mecanico faz o mesmo com referencia ao seu trabalho. Porém se o cirurgião estivesse atordoado e tentasse realizar uma cirurgia com as ferramentas de um mecanico o resultado seria desastroso. A mesma infelicidade teria um mecanico iludido tentando higienizar o motor dos carros com éter antes de consertá-los.

Cada Deidade, cada aspecto da Divindade possui seus próprios atributos que devem ser respeitados em suas disciplinas espirituais de forma a obter resultados. O devoto de Krishna não  toca em cranios e nem faz Sadhana em campos crematórios pois isso é ofensivo a sua Deidade, da mesma forma um Aghori não despreza a manifestação de Shiva que dá nome a sua tradição (Aghora Shiva, a face voltada para o Sul) para adorar outras Deidades. O Aghori adora Shiva acima de todas as outras Deidades. E muito simples observar que estes Dharmas dados como exemplo, válidos e legitimos quando praticados de forma não adulterada, possuem elementos imcompatíveis entre si. Não se pode ser um Vaishnava e um Aghori ao mesmo tempo. Não é possivel conciliar estilos de vida incompativeis numa mesma vida.


Na gravura 1: Ursinho inseguro imagina que é malvado enquanto se olha no espelho.
Na gravura 2: pizza de feijoada com ovo frito e outras misturas.....

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Linga Sharira

           
          O Sanatana Dharma afirma que deveríamos prestar três ofertas de gratidão pelo privilégio de ter um nascimento humano. Este nascimento é um dom muito especial pois somos a única espécie que pode buscar e alcançar voluntariamente a Liberação Final (Moksha) após realizarmos os outros três objetivos da vida humana – o Dharma, a vida em virtude; Artha, aquisição do patrimônio necessário à nossa realização social; e Kama, a realização dos prazeres lícitos e anseios estéticos. Portanto há quatro realizações (ou seja, quatro Purusharthas) para uma vida plena.

           As três ofertas de gratidão são um reconhecimento pela oportunidade de realizar os quatro Purusharthas. Prestamos gratidão aos Devas (as Deidades), aos Rshis (aos sábios) e aos Pitris (aos nossos ancestrais). Aos Devas agradecemos as bênçãos da boa sorte, da boa chuva (que permite a fartura de alimentos) e tudo aquilo que a natureza e as condições propicias podem nos oferecer. Aos Rshis agradecemos todo o conhecimento acumulado pela humanidade através dos séculos, agradecemos a própria civilização que nos permitiu viver em condições melhores do que aquelas dos animais. Aos Pitris, ou seja, aos nossos ancestrais agradecemos pelos nossos corpos físicos e nossas aptidões que são herdados através do Linga Sharira, agradecemos também o cuidado e o carinho que nos permitem viver na terra onde nascemos e sob as condições sob as quais nos criamos.

           O Linga Sharira é aquilo que nos liga aos nossos mais remotos ancestrais, ele é algo como um “corpo transmissível” que herda determinadas características e as repassa à geração seguinte. Com uma mínima reflexão filosófica já podemos perceber que nossos corpos e aptidões não surgem do nada, eles não aparecem por geração espontânea durante o nosso parto. Nossos corpos e aptidões são o somatório daquilo que nossos ancestrais cultivaram e preservaram. Nossa altura, tipo físico, temperamento e outras características podem ser identificadas claramente naqueles que vieram antes de nós. È nosso dever preservá-las e repassá-las a geração seguinte.

           Linga Sharira é um termo em língua Sânscrita, ele vem das palavras “Linga” que significa gênero e Sharira que significa alicerce ou corpo. Portanto o Linga Sharira é aquilo através do qual o gênero é mantido. Há três gêneros reconhecidos pelo Dharma: o PumLinga – o gênero masculino; o StriLinga – o gênero feminino; e o NapumsakaLinga – o gênero neutro. A definição do Linga Sharira é dada numa escritura chamada Samkhya Karika e ali encontramos a citação: “O Linga Sharira (“corpo transmissível”) é independente, (porém) conectado (ao corpo físico), e precede o desenvolvimento físico daquele que o carrega ...... Ele é transmitido sem aderir ou receber características externas”. 
Samkhya Karika 40. 
A descrição é clara o suficiente para estabelecermos um paralelo com algo só recentemente descoberto através de metodologia cientifica – o código de DNA. O mito de que o Linga Sharira seria algo “etérico” ou sobrenatural foi muito divulgado por uma sociedade que alegava receber bilhetinhos de uns “Mahatmas” porém essa interpretação não se sustenta diante do verso 41 que diz: “Não pode haver uma pintura ou quadro sem uma tela ou base, não pode haver uma sombra sem um pilar. Da mesma forma não pode haver Linga Sharira sem o alicerce das características (do corpo físico) que o sustentam.” Ou seja, o Linga Sharira se mantém através das mesmas características que ele promove. Daí podemos entender o quão importante é a sua preservação e o respeito pelos nossos ancestrais. Desprezar nossas raízes nos leva diretamente à destruição de nossa herança e de nós mesmos.

           A própria obtenção de Moksha, a Liberação Final, não é possível sem que nossos ancestrais estejam satisfeitos e a propiciação deles é muito relevante na jornada espiritual de todo Sadhaka. Consulte seu Guru para saber como a sua tradição do Dharma realiza as três ofertas de gratidão aos Devas, Rshis e Pitris. 


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Diferentes Tradições Tantricas




Diferentes tradições Tântricas contemporâneas

O Tantra apresenta clara influência principalmente em três grandes tradições religiosas: a Hindu, a Budista e a Jainista. Portanto há Tantras Hindus, Budistas e Jainistas que compartilham certos conceitos que são básicos e formam o alicerce da tradição. Quais seriam estes conceitos ? Se tivéssemos que definir de forma mínima a tradição Tântrica nos arriscaríamos à dizer que a identificação do adorador com a Divindade adorada seria o ponto essencial. Esta identificação é comum à todas as tradições que originam-se do Tantra. Há um ditado comum que afirma que: “O “não-Deva” não pode adorar um Deva, ou seja, aquele que não é Shiva não poderia adorar à Shiva da mesma forma que o “não-Ganesha” não poderia adorar Ganesha”.

Além desta identificação do adorador com a Divindade há inúmeros detalhes no Modus Operandi, ou seja, na prática litúrgica que são comuns às tradições Tântricas. A liturgia inicial dedicada aos “guardiões da tradição” (1), o caráter esotérico/iniciático dos ensinamentos (2), o uso constante de técnicas de meditação/visualização durante os rituais (3) e a realização periódica de “cerimônias de fogo” (4) são alguns dos elementos facilmente observáveis.

As tradições Tântricas mais conhecidas são:
a. O Shri Vidya, o PañchaRatra, o Vaikhanasa e o Kaula entre os Hindus.
b. O Vajrayana com suas escolas Sakya, Nyingma, Kagyu e Gelugpa entre os Budistas Tibetanos.
c. O Mikkyo presente no Budismo Tendai e Shingon do Japão, que muito influenciaram o Shugendo.
d. O Jaina Tantra centrado no culto à Shakti Padmavati.

O Shri Vidya é a tradição Tântrica mais divulgada entre os Hindus. Esta tradição costuma dividir-se em “Kali Kula” e “Shri Kula” que indicam uma predileção por formas mais iradas ou mais pacificas da Divindade respectivamente. No Shri Vidya os ritos Kaulikas, ou seja, revelados nos Kaula Tantras foram adotados somente nos graus mais elevados de iniciação.

O PañchaRatra e o Vaikhanasa são tradições Tântricas Vaishnavas. Eles possuem muitos pontos em comum com outras tradições Tântricas Hindus como a prática de Nyasas,  meditações/visualizações durante os ritos e cerimônias de fogo. Porém seu foco está na adoração Tântrica às Deidades nos Templos.

Muitos textos Tantricos se apresentam como “Kaula Tantras” e esta tradição se tornou a mais comentada devido a oferenda de carne, vinho e outros itens que é feita às Deidades por seus iniciados mais elevados. Suas escrituras e iconografia religiosa influenciaram fortemente o Vajrayana e o Shri Vidya.

O Vajrayana possui uma perspectiva Budista e afirma-se Tântrico. Muitas de suas disciplinas espirituais (Sadhanas) são transmitidas mediante iniciação e há um uso frequente de visualizações e gestos rituais (Mudras). Sua iconografia religiosa menciona o uso de taças de crânio, Divindades iradas e muitos outros elementos do antigo Shivaismo (KalaMukha, Kapalika etc..) praticado nos campos crematórios.

O Shingon e Tendai preservaram no Japão muitos elementos Tântricos como a adoração as Cinco Grandes Deidades (Pañchayatana) que, entre eles, são os Cinco Grandes Reis (Go Dai Myoo) e a prática de cerimônias de fogo (Homa em Sânscrito, Goma no Japão). Muitos Mudras também são usados aqui e há uma atenção especial as purificações do corpo, do local dos ritos e das oferendas assim como nas outras tradições Tântricas. 

O Jaina Tantra praticado principalmente na Índia tem um foco em Shakti, a Mãe Divina, e executa muitas disciplinas espirituais ligadas as Matrkas que simbolizam as freqüências e pontos de articulação relacionadas ao alfabeto Sânscrito. Possue muitas semelhanças com o estágio de Dakshinachara que é mencionado nos Kaula Tantras.

Há tradições antigas que muito influenciaram o desenvolvimento e a divulgação de conceitos Tântricos. Algumas delas são mencionadas em fontes não-tantricas e possuem textos preservados porém “sem Guru não há Tantra”. É possível apreciar o Tantra à distancia ou até mesmo “estudá-lo” entretanto seus frutos só são alcançados através da transmissão direta da energia cultivada na tradição – ShaktiPat. O sábio e erudito AbhinavaGupta menciona a escola Trika que está extinta pois não há Gurus vindos através de uma sucessão discipular legitima (Parampara) embora seus ensinamentos e textos tenham atraído considerável interesse acadêmico. Conceitos desta escola como o da Deusa Tríplice – “Para, Apara e Parapara” foram assimilados por escolas contemporâneas e uma clara semelhança entre este e as três Deusas mencionadas no Chandi Path e seus “segredos” (textos Rahasyams) são evidentes.

Na gravura: Mandala para Sadhana do Mantra Bija “Hrim” usada no Jaina Tantra.

Senhor Ayyappa





Senhor Ayyappa


           O Senhor Ayyappa possui milhões de devotos em todo o mundo e seus Templos atraem multidões em peregrinação anualmente. Somente o Templo de Sabarimala no estado de Kerala - India atrai mais de 17 milhões de peregrinos por ano e, em alguns anos, esse numero se aproxima dos 30 milhões de visitantes.

           O Senhor Ayyappa é uma encarnação muito misericordiosa da Divindade e se manifestou através de diferentes formas para o beneficio da humanidade. Cada uma destas formas possui atributos diferentes para materializar especificamente o que é necessário para a diversidade de devotos. Ele se manifestou como menino (Shishu), como estudante celibatário (Brahmachari), como pai de família (Grhasta), como renunciante maduro (VanaPrastha), como Yogi etc ......

           Cada uma dessas formas possui injunções especificas (Vidhis) para a sua adoração e a obtenção de sucesso (Siddhi) em suas discipinas espirituais (Sadhanas). Isso é comum na adoração de outras formas da Divindade também como, por exemplo, o vegetarianismo para a adoração do Senhor Vishnu ou ausência de Tulasi na Puja para o Senhor Ganesha. Outras religiões do mundo possuem regras especificas para determinados praticas. No Shintoismo do Japão o santuário da ilha de Okinoshima (patrimônio mundial, segundo a UNESCO) é reservado apenas aos homens que ali realizavam ritos e oferendas aos Deuses do mares. No Candomblé do Brasil os devotos em adoração à Oxalá evitam o uso de roupas de cor, especialmente as vermelhas ou negras, pois somente a cor branca agrada à esta forma da Divindade. Entre os muçulmanos as mulheres são proibidas de rezar entre os homens em várias mesquitas. Inúmeros outros exemplos podem ser encontrados em outras tradições.

           O maior Templo do Senhor Ayyappa no mundo fica no complexo de Templos de Sabarimala. Lá o Senhor se manifestou como um eterno estudante celibatário (Naishtika Brahmachari). Por esse motivo o Templo não permite a entrada de mulheres em idade fértil, ou seja, dos 10 aos 50 anos. Mulheres abaixo ou acima destas idades tem acesso irrestrito. Outros Templos de Ayyappa onde outras de suas manifestações estão presentes permitem a entrada à todos pois as injunções sob as quais foram construídos não mencionam restrições.

           O Templo de Sabarimala é particularmente interessante pois em seu complexo ele abriga mesquitas e igrejas cristãs. É muito comum que muçulmanos visitem o santuário Hindu após a ida à mesquita de Vavar e que cristãos o façam após a visita as igrejas de Santo André e São Sebastião. O complexo de Templos é um rico exemplo de harmonia inter-religiosa e tolerância mutua.

           A narrativa das origens do Templo de Sabarimala revela que um rei da dinastia dos Pantalam que governava a região não conseguia ter filhos para herdar o trono e que, numa de suas caçadas pela floresta, encontrou um bebe à beira do rio. O rei levou este bebe até a cabana de um homem santo (Sadhu) que vivia próximo e este revelou que o rei deveria criá-lo como se fosse seu próprio filho pois ele herdaria o trono. Conforme a profecia do sábio, assim foi feito, e o garoto recebeu o nome de ManiKantha. Entretanto após alguns anos a rainha engravidou e quis tirar ManiKantha do caminho da coroação de seu próprio filho. Ela fingiu adoecer e alegou que só seria curada se bebesse o leite de uma tigresa. Ninguém no reino se ofereceu para a perigosa missão e, compadecido da doença de sua mãe adotiva, ManiKantha se voluntariou. Ele não apenas trouxe o leite mas voltou da floresta montado sobre a tigresa !

           Durante a busca ele foi atacado por um ladrão chamado Vavar que era muçulmano e tentou matá-lo. Eles lutaram e durante a luta o Senhor revelou sua verdadeira forma divina. O ladrão, então, arrependeu-se de seu passado e passou a viver uma vida honesta tornando-se seu fiel protetor. Essa é a origem da mesquita na região que foi construída em homenagem ao retorno à retidão vivido por Vavar.