sábado, 2 de março de 2013

Os Kalās





“Kala” é uma palavra em Sânscrito e naquela língua existem diferenças entre vogais curtas e vogais longas. Estas diferenças pode gerar terríveis mal-entendidos pois estaríamos falando de coisas diferentes apesar de que, na escrita em caracteres Ocidentais, elas pareceriam as mesmas. Para esclarecer podemos usar um exemplo em Português onde “coco”(fruta) é completamente diferente de “cocô” (fezes). Neste ensaio falaremos sobre “Kalā”, um pedaço ou pequena parte de algo. Esta palavra nada têm à ver com “Kāla” que significa tempo. Este primeiro esclarecimento é muito relevante para o estudioso sério dos Tantras pois estas duas palavras e seus conceitos associados são totalmente distintos.

O estudo dos Kalās é alvo de muita deturpação e absurdos e neste momento se tornou mandatório comentar sobre o termo com mais propriedade. Lembremos as linhas expressas pelo Kaula Jñana Nirnaya Tantra no capitulo sete, versos 26 à 29, onde se lê:
“ Apenas um Kaulika deveria realizar estes atos. Sem o conhecimento das escrituras Kaula, sem um Guru Kaula, sem um Mantra Kaula e sem Shiva, o agente é um Pashu. Não se deve realizar (os ritos Kaula*) à não ser que tenha domínio sobre os Kula Agamas. “
“ A pessoa desonesta que finge ser um Natha ou um Kaulika está iludida, e por ser ignorante (dos vários detalhes*) acabará por ser destruída, certamente será destruída. Ele se torna fracassado, confuso, paralisado, doente e caído. ”

Muitas das disciplinas espirituais (Sadhanas) propostas pelos Tantras visam reduzir os aspectos inerciais e (auto)destrutivos (Tamasikos) da mente. Isto é feito através de procedimentos que aumentam as qualidades Rajasikas, que correspondem às forças dinâmicas e criativas. Após este estágio o iniciado pode então estabelecer-se nas puras vibrações Sattvikas de harmonia. Entretanto aqueles aventureiros que se lançam á certas Sadhanas sem a devida orientação acabam se vendo inundados de energia criativa, e se sentem como se fossem verdadeiros gênios. Uma observação mais atenta revelará que eles estão apenas muitos confusos e deslumbrados, expressando constantemente conteúdos sem consistência. Numa análise de Ayurveda se diria que suas mentes estariam com Vata muito agravado. Todos estes riscos podem ser devidamente evitados ao seguir os procedimentos do modo tradicional e sob orientação adequada.

O Sadhaka iniciado evoca os Kalas diariamente em suas disciplinas, eles estão associados às três "luminárias": a Lua, o Fogo e o Sol. Estes três são frequentemente mencionados na literatura Tantrika e possuem significados distintos em vários níveis de interpretação. Ao estabelecer o Samanyarghya, as águas que serão usadas durante o rito principal, o Fogo é representado no Yantra desenhado sobre o granito, o Sol está na Kalasha e a Lua é o liquido derramado. Esta  instalação será usada para todas as oferendas liquidas para as Deidades durante uma Puja. Há ainda um significado interno: o “Fogo” personifica o Muladhara Chakra do iniciado e Kundalini ali adormecida, o Sol é seu Anahata Chakra e sua identidade, seu Ahamkara, a Lua personifica o Ajña Chakra e o néctar da imortalidade (Amrta) que flui à partir de lá.

Observamos que por trás de um rito aparentemente simples, como instalar a Kalasha com as águas da Puja, existe uma simbologia muito sofisticada. O iniciado está ali trabalhando simbolicamente com aspectos muito profundos de sua Psique. O Samanyarghya instalado é um reflexo dele mesmo que passa então à se “trabalhar” de uma forma representativa e  dramática. As três luminárias possuem ainda significados mais sutis. Sir John Woodroffe em seu “Garland of Letters” no capitulo sobre “o Sol, a Lua e o Fogo” diz: “ Aqui está o alicerce do jogo secreto praticado entre  Shiva e Shakti como Lua, Fogo e Sol que é a união de ambos. Daqui procede o Universo de Nomes e Formas. “ Mark Dyczkowski, da Universidade de Nova Iorque, em seu “The Canon of the Shaivagama and the Kubjika Tantras of the Western Kaula Tradition” no capitulo sobre os quatro Amnayas afirma que a Lua, o Sol e o Fogo correspondem à Chandini, Bhaskari e Tejotkata respectivamente. Estes aspectos estão associados à Deusa em Suas formas de Para, Apara, Parapara.

Cada luminária possui um numero especifico de Kalas, sendo 10 Kalas para o Fogo, 12 para o Sol e 16 para a Lua. O MahaNirvana Tantra em seu capitulo VI menciona quais são os Kalas respectivos à cada luminária, esta mesma lista é apresentada no MantraMahoDadhi que também informa o Kala Nyasa.
Dhumra, Archi, Jvalini, Sukshma, Jvalini, VishpuLingini, Sushri, Surupa, Kapila e HavyaKavya Vaha são os dez Kalas do Fogo.
Tapini, Tapini, Dhumra, Marichi, Jvalini, Ruchi, Sudhumra, Bhogada, Vishva, Bodhini, Dharini e Kshama são os doze Kalas do Sol.
Amrta, Pranada, Pusha, Tushti, Pushti, Rati, Dhriti, Shashini, Chandrika, Kanti, Jyotsna, Shri, Priti, Angada, Purna e Purnamrta são os dezesseis Kalas da Lua.

Vemos claramente que os Kalas são aspectos (porções) relacionados às qualidades das luminárias as quais correspondem. Isto é facilmente verificável ao se observar o nome em Sânscrito de cada um dos Kalas. Impor um significado além do que é claramente expresso seria uma apropriação indevida do termo Tantriko e não corresponde de forma alguma ao que é ensinado na tradição. Portanto não há “sacerdotisas dos Kalas” ou coisas do gênero e nem tampouco há associações entre este termo e as “flores” mencionadas em algumas escrituras. Os romancistas que afirmam tal coisa estão apenas demonstram seu desconhecimento da tradição e dos textos Tantrikos.

Que Mãe Kali nos abençoe

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