sábado, 22 de junho de 2019

Por que cinco elementos na Puja ?


Pañchopachara Puja
A Puja de cinco elementos

A palavra “Puja” vêm da língua Sânscrita e uma importante escritura chamada Kularnava Tantra comenta que Pujá é aquilo que dá origem aos méritos espirituais (Punya). Toda Puja possui conceitos e procedimentos básicos que são comuns à todas as tradições embora a realização destes procedimentos possa variar conforme a disponibilidade de tempo e recursos materiais assim como do conhecimento da pessoa que os realiza. O primeiro conceito que deve ser entendido sobre uma Puja é que ela é uma forma de Yajña, esta palavra em Sânscrito significa sacrifício. No capitulo três da Bhagavad Gita há interessantes reflexões sobre o Yajña começando pelo verso 8 onde se afirma a superioridade da ação sobre a inércia.Do verso 9 até o verso 16 vários aspectos do Yajña e sua importancia são relembrados. A ciência do Yajña é minuciosamente estudada pelo ramo da filosofia Védica chamado de Purva Mimamsa.

Para fins didáticos se afirma que todo Yajña possui, no mínimo, três elementos básicos: Devata – um ideal de perfeição, aquilo que é almejado e que nos inspira; Dravya – aquilo que é oferecido, aquilo que abrimos mão e “sacrificamos” para alcançar algo superior; e Mantra – a vibração e ressonância desta ação de oferecer ou, no âmbito humano, a reflexão verbal e inteligível expressa em palavras e que transmite o significado de nossas ações.

O que chamamos de Puja de cinco elementos é aquela onde as cinco oferendas essenciais estão presentes. Cada uma destas oferendas possui um significado e uma justificativa prática para o seu uso, por isso elas foram prescritas pelas injunções (Vidhi) dos Agamas, Tantras e Puranas. Uma injunção não é algo para apenas maravilhar-se ou louvar a sabedoria ou riqueza simbólica de suas reflexões, uma injunção é algo para ser realizado, para ser feito, e seus frutos só são alcançados através da ação.

Este tema é muitissimo extenso e exige um estudo detalhado por isso para resumir a relação entre as oferendas e a Divindade recorremos à um pequeno trecho do diálogo entre Uddalaka e YajñaValkya descrito no BrahadAryanaka Upanishad. Este diálogo aconteceu na corte do rei Janaka após um grande Yajña aonde centenas de sábios estavam presentes. Este rei é mencionado na Bhagavad Gita capitulo três verso 20 como um homem que atingiu a auto-realização apenas por cumprir o seu dever. Nos versos seguintes (22 e 24) o Senhor Supremo menciona que até Ele se dedica à constante ação e que, sem ela, todo o Universo seria levado à destruição. Décima pergunta feita por Uddalaka após as respostas de 3339, 333, 33, 6 e 3 Deuses. 
Uddalaka perguntou: - “Quantos Deuses existem ?”
YajñaValkya respondeu: - “Dois, Prana (a energia vital) e Anna (o alimento).”

Este trecho nos ajuda à entender a perspectiva de Deus (Brahman) presente em todas as coisas mencionada nos Vedas. Brahman assume múltiplas formas e apresentações e até as almas individuais (Jiva) são manifestações de Brahman. Prana e Anna são “apresentações indiretas” (Paroksha) de Brahman, estas apresentações indiretas permeiam todo o universo.

Por que usamos cada um destes elementos numa Puja ?
Dipa (Luzes) – A presença da luz é uma das analogias mais comuns sobre a Divindade e a espiritualidade. Mas por que a luz assume este significado ? A luz pode ser diretamente produzida (Prakashana) ou um reflexo (Vimarshana) porém, em ambos os casos, ela iluminará .... Sempre que há luz há um combustível que permite a sua existência, há algo que queima e é sacrificado para que o bem precioso da luminosidade esteja presente. Isso acontece no fogo de uma lamparina, nas chamas de uma cerimônia de fogo (Homa, Havana etc..) ou até mesmo no Sol onde o Hidrogênio é usado como combustível. Portanto a presença da luz é o “selo”, o fruto, a testemunha visível (Drshya) de todo Yajña. Sempre que temos a presença de uma chama no local do ritual indicamos que ali realiza-se um Yajña. Onde há inércia, ou seja, a "não-ação" há escuridão; onde há a correta ação, o sacrificio, há luz.

Gandha (“óleo perfumado”) – Muito do que fazemos diariamente não é fruto de uma reflexão ou de algum processo racional mas sim a expressão de uma “tendência”, de um “reflexo adquirido” ou “impulso latente” em nossas mentes. Esse impulso é chamado de Vasana em Sânscrito, palavra originada do verbo vās/vāsavati (वास् वासवति) cuja raiz significa perfumar ou “dar cheiro”. Quem não se vira para reconhecer a moça de delicioso perfume que entra numa festa ? e ser abençoado pela visão de sua beleza. Quem não se preocupa diante do cheiro de fumaça em sua casa ? com o pressentimento de eventual perigo. Quem não aprecia o aroma de comida pronta para o almoço ? relembrando seus sabores e satisfação. Vasana, o impulso de agir à partir de uma impressão prévia, é a base do Karma que colhemos em nossas vidas. Somos e desfrutamos daquilo que instintivamente nos aproximamos.

Pushpa (Flores) – O desabrochar das flores é certamente um dos mais claros sinais de energia vital (Prana) na natureza. A sua presença é indicadora de vida e anunciadora de frutos vindouros. O Prana sendo energia vital é uma das manifestações de Chit Shakti, a Força Espiritual da Consciência. As flores são geralmente representadas nas Mandalas onde prestamos reverencias a “corte angelical” (Avarana Devatas) que acompanha toda Deidade. As pétalas das flores refletem a verdade espiritual de que nenhuma forma da Divindade atua sozinha e que sempre transborda vida e bem-aventurança para outras entidades que a acompanham.

Dhupa (Incenso) – O ritmo respiratório é um dos sinais de vitalidade de um organismo e suas variações indicam indiretamente o aumento ou diminuição da energia vital (Prana). O aromático incenso transforma o simples ato de respirar numa experiência diferente e estimula instintivamente o aprofundamento do ritmo respiratório. Estar confortável em ambiente onde o incenso é queimado indica que a pessoa pode lidar com níveis mais elevados de energia em sua mente. Na presença de bloqueios energéticos ou respiratórios a tendência natural é a de manter a respiração o mais superficial possível para evitar a manifestação de lembranças ruins profundamente escondidas na mente. Neste caso a queima do incenso pode ser interpretada como uma experiência não-prazerosa.  

Naivedya (Alimento) – Há inúmeras referencias escriturais nas Upanishads sobre a sacralidade do alimento (vide Chandogya, Taittirya, Maitra, Brhad Upanishads etc..). A presença de alimento chega à ser comparada à presença de Brahman. É o alimento que nos permite agir, refletir, adorar e buscar a Divindade. É o alimento que mantém a chama da vida. Em toda atividade do Dharma como recitar Mantras, fazer uma Puja etc. deve manter-se uma porção de alimento, mesmo que essa porção seja tão pequena como uma fruta.

sábado, 15 de junho de 2019

Os Adityas Aryaman e Daksha


Os Adityas – Aryaman e Daksha


               Durante o periodo Védico os Adityas são a personificação dos conceitos morais e éticos, eles nasceram da Grande Deusa Aditi e são 12 ao todo, trabalhando sempre aos pares onde um rege a inter-relação entre os homens e o outro rege a relação entre os homens e as formas da Divindade, ou seja, os Deuses. Após o período Védico estes Adityas passaram à ser identificados como formas do Deus Sol, Surya Deva.

               Aryaman e Daksha correspondem a arte de cultivar relações harmoniosas, acordos e tratados entre ambas as partes envolvidas. Aryaman é o caráter nobre e a elegância entre os homens, ou seja, a habilidade de se mostrar confiável e estabelecer amizades. Daksha é a excelência ritual, a habilidade de interagir com poderosas forças sutis de forma à obter a sua intercessão nos assuntos humanos.

               Ambas as artes são muito providenciais e estratégicas, quem se atreveria à criar desconforto ou praticar uma ofensa (Aparadha) àqueles que lhe são caros ? Seja num acordo comercial, nas relações de trabalho ou na recepção à convidados sempre há regras que visam evitar gaffes e permitem que todos possam se entender claramente mesmo pertencendo à sociedades, culturas ou meios sociais diferentes ou até mesmo que falem línguas diferentes. Em ambiente diplomático ou grandes corporações há funções especificas para cuidar dos detalhes desta interação e um mestre de cerimônias habilidoso é capaz de orientar os anfitriões de forma que tudo corra bem e os objetivos sejam atingidos. Isso é o que os povos Védicos chamavam de Aryaman, a maestria da nobreza e do comportamento adequado, respeitar as normas de Aryaman faz do homem um “Arya” (Ariano), ou seja, um ser humano de valores e comportamentos nobres.

               Os Deuses são Consciências que habitam planos muito mais sutis do que aqueles aos quais os homens estão habituados. Seria uma grande precipitação admitir que eles seguiriam ou apreciariam os mesmos protocolos que regem o comportamento entre os homens. Da mesma forma que regras bem estudadas propiciam um harmonioso contato diplomático há regras especificas para o contato com Inteligências que não possuem corpos físicos. Essas regras permitem que os objetivos sejam atingidos e evitam todo o tipo de percalços que normalmente afligem os afoitos e descuidados que se atrevem à realizar procedimentos rituais. Daksha é esta aptidão e destreza para lidar com Forças e resultados que não podem ser vistos (Adrshya) ou percebidos diretamente. Daksha só gerou filhas mulheres, ou seja, Shaktis – Forças Espirituais e teve a honra de ser o pai da Deusa Suprema quando ela encarnou.

               Tanto a festa oferecida e a recepção aos convidados quanto uma Puja ou qualquer outro ritual são celebrações. Sendo celebrações elas são momentos especiais que devem ser desfrutados com alegria e prazer. Tudo ali foi preparado para ser belo e agradável – a comida que foi feita, o perfume suave, as belas lamparinas e flores …. Quem não ficaria feliz na bela festa de 15 anos de sua filha ou no baile de sua formatura ? Porém, apesar de serem momentos de extrema alegria não deixamos de cumprir um mínimo de protocolo para garantir que todos os presentes possam ter a mesma satisfação. As regras de um ritual (estabelecidas pelo Karma Kanda na India e pela Theurgia Pitagórica no Ocidente) não contradizem a alegria do momento, elas apenas garantem que todos saiam satisfeitos e deixem sua gratidão e bênçãos sobre seus anfitriões.

domingo, 2 de junho de 2019

O que é sagrado é o que é matematicamente harmonioso



               Alguns leigos observam os rituais e as disciplinas espirituais e não conseguem entender a lógica por trás dos procedimentos, dos símbolos e materiais utilizados e da escolha do momento ideal de agir. Para algumas pessoas tudo parece aleatório com se fosse fruto de um capricho do sacerdote ou da tradição e, então, caem na armadilha intelectual de que tudo seria “simbólico” e que o importante seria uma questão de “pensamento positivo”.

               Bem, basta refletir sobre a realidade do mundo e veremos que o tal pensamento positivo demonstra não funcionar para a maioria das pessoas que apesar de acreditarem nas suas metas, desejarem ardentemente alcançá-las e perseverarem em seus objetivos ...... conseguem pouquíssimos ou até mesmo nenhum resultado. Vemos então que não basta acreditar ou ter fé, é importante agir de forma adequada para colher os frutos planejados. Quem plantar uma mangueira não colherá morangos e se esta mesma mangueira for plantada num lugar de clima frio ou inadequado até mesmo as mangas não serão colhidas ......

               É sensato pensarmos que a ação adequada (para atingir uma meta) é aquela sintonizada com o objetivo a ser alcançado da mesma forma que um resultado especifico é obtido pela operação matemática que lhe corresponde. Nos Tantras as quatro metas de uma encarnação num corpo humano são chamadas de Purusharthas. Estes são a realização de Dharma, de Artha, de Kama e, ao final, de Moksha, ou seja, alcançar a Libertação Final. Os rituais são as ações adequadas para alcançar os três primeiros objetivos e preparar o caminho para o consecução da Libertação Final. As Pujas, recitações de Mantras, cerimônias de fogo, Samskaras e outros ritos são matematicamente harmoniosos e simbólicamente significativos para o alcance dos resultados desejados.

               Esta harmonia matemática, esta precisão, é recomendada sempre que se lida com forças reais mesmo que estas sejam muito sutis ou até mesmo diretamente imperceptíveis (Adrshya) como é o caso da Força Espiritual (Shakti). O efeito de uma ação ritual não é diretamente perceptível – se fizermos um ritual para a prosperidade não cairá dinheiro do céu sobre nossas cabeças – este efeito é observável apenas pelos seus resultados. Estes resultados se manifestam através dos canais e processos materiais conhecidos e muitos vezes são chamados de “sorte”. O leigo vê ali “magia” ou um “milagre” mas o iniciado sabe que o efeito obtido está em harmonia com as ações rituais realizadas para atingi-lo. Por isso tudo foi feito com a maior precisão possível em termos de ação (Kriyas), materiais (Dravyas), momento adequado (Muhurta) e outros detalhes.

               Segue abaixo um vídeo com exemplos do uso de proporções matematicamente harmoniosas e os resultados obtidos. A Divindade é Sat – Verdadeira, Chit – Plena de Consciência e Percepção, e Ananda – Agradável, ou seja, esteticamente harmoniosa. Os objetos sagrados são aqueles que possuem Sattva Guna, ou seja, são capazes de perpetuar a sua exata proporção indefinidamente. Matematicamente precisos. 



Que Mãe Kali nos abençoe.  


segunda-feira, 13 de maio de 2019

Sadhanas Tantrikas feitas por Shri RamaKrishna






SADHANA  TÂNTRICA


[ASSUNTOS: 1 . O entendimento correto da Brahmani a respeito do mestre. 2 . Porque ela lhe pediu para ele fazer Sadhana Tântrica. 3 . Como a Brahmani pôde pensar em ajudá-lo, uma Encarnação. 4 . A ansiedade dela para agir assim. 5 . O mestre pedindo permissão da Mãe Divina. 6 . O zelo do mestre na Sadhana. 7 . Construção do assento no Panchavati . 8 . Vendo a Deusa na mulher. 9 . Renúncia à aversão. 10 . O comportamento do mestre por ocasião das Sadhanas Tântricas. 11 . A história de Ganesha. 12 . A volta ao redor do universo por Ganesha e Kartikeya. 13 . A singularidade do mestre em sua Sadhana Tântrica. 14 . O propósito divino por detrás de tudo isso. 15 . A impli­cação do sucesso do mestre sem associação com uma mulher. 16 . Objetivo das práticas Tântricas. 17 . Outra razão para o sucesso do mestre sem associa­ção com uma mulher. 18 . Suas experiências durante a Sadhana Tântrica. 19 . Repartindo a comida tomada pelos chacais e cães. 20 . Penetração pelo fogo do conhecimento. 21 . O despertar da Kundalini. 22 . Visão da Brahmayoni. 23 . Anahata Dhvani. 24 . Inutilidade dos poderes miraculosos. 25 . A con­versa do mestre com Swami Vivekananda a esse respeito. 26 . O poder ilusó­rio da Mãe Universal. 27 . A beleza de Shodasi, a Mahavidya. 28 . Resultados da Sadhana Tântrica. 29 . Esplendor da pessoa do mestre. 30 . A Bhairavi Brahmani, uma parte de Yogamaya.]


1. Brahmani Bhairavi não chegou à conclusão sobre a natureza incomum do mestre somente pela razão e dedução. O leitor pode recordar-se do que ela disse ao mestre, em seu primeiro encontro com ele, que tinha que entrar em contato com três pessoas, Shri Ramakrishna e mais duas outras e ajudá-las em seu desenvolvimento espiritual. Ela havia recebido ordem da Mãe do Universo muito antes de ter tido o privilégio de encontrar o mestre. Foi sua percepção interior, resultante de suas práticas espirituais, que a trouxe a Dakshineswar e ajudou-a a entender o mestre. Com o passar dos dias, à medida que a associação de Brahmani com o mestre se tornava cada vez mais íntima, compreendeu o papel que ela teria em sua Sadhana e a natureza da assistência que deveria dar-lhe. Portanto, agora não passava o tempo em simplesmente mudar a concepção errônea que as pessoas tinham a respeito dele, mas obrigava o mestre a praticar diversas disciplinas espirituais de acordo com as prescrições estritas das escrituras, para que ele, tendo uma visão perfeita da Mãe Universal e dotado de Sua graça e favor infinitos se tornasse firmemente estabelecido em Seu próprio poder divino, isto é, em sua verdadeira natureza.

2. A Brahmani, ela mesma uma avançada praticante, ao ver o mestre e conversar com ele, não levou muito tempo para compreender que o mestre não poderia livrar-se das dúvidas sobre seu próprio estado, porque havia alcançado, até então, a visão da Mãe Divina somente com a ajuda de sua extraordinária devoção, ao invés de seguir estritamente os tradicionais caminhos dos instrutores espirituais. Por isso surgia de vez em quando na mente dele, a dúvida se suas visões da Mãe Divina, eram ou não o resultado de um desarranjo do cérebro, ou se suas extraordinárias mudanças físicas e mentais eram sintomas de uma doença maligna. A Brahmani pensou no assunto e induziu o mestre a seguir o caminho da disciplina dos Tantras. Ela sabia que, assim que o mestre seguisse o caminho da disciplina trilhado pelos Sadhakas do passado e tivesse experiências dos estados espirituais semelhantes àqueles experimentados por eles, compreenderia que seus estados não eram produzidos por qualquer doença. Quando ele visse relatado, nos Tantras, que determinados resultados eram produzidos pela execução de ritos particulares e quando ele próprio conseguisse aqueles resultados pela prática daqueles ritos, teria a firme convicção de que, pela disciplina, o homem alcança experiências fora do comum ao elevar-se a planos de consciência, no campo interior, cada vez mais altos e que seus estados físicos e mentais haviam sido produzidos somente daquela maneira. O resultado seria que, por mais estranhas que fossem as experiências que ele viesse a ter no futuro, ele as consideraria verdadeiras e iria em direção a seu objetivo sem ser perturbado por elas. A Brahmani sabia que as escrituras, por esta razão, aconselhavam que o aspirante sempre comparasse as experiências de sua própria vida com as palavras do Guru e com os Shastras, para ver se concordavam ou não.

3. Por que a Brahmani empenhava-se em fazer o mestre praticar aquelas disciplinas, embora soubesse que ele era uma Encarnação Divina? Ou será que aquele que compreende a glória das Encarnações de Deus aceita a conclusão de que elas são perfeitas e que as disciplinas são completamente desnecessárias para elas? Respondemos que isso teria sido verdadeiro, se a Brahmani sempre estivesse consciente somente da grandeza transcendente do mestre e livre da afeição pessoal por ele. Mas esse não foi o caso. A Brahmani sentiu desde o primeiro encontro, uma afeição maternal pelo mestre. Não há na terra nada mais poderoso do que o amor para obliterar numa pessoa, a consciência de poder sobre o objeto de seu amor e impeli-la a fazer o que considera bom. Portanto não há dúvida que foi sua afeição sincera que impeliu a Brahmani a induzir o mestre a fazer aquelas práticas espirituais, embora conhecesse a grandeza dele. O mesmo ocorreu nas vidas de todas as Encarnações. Apesar das pessoas ligadas a esses seres serem às vezes tomadas por temor pelo conhecimento de seus extraordinários poderes espirituais, elas, como se vê, esquecem-se de tudo no momento seguinte e, encantadas pela atração de seu objeto de amor, sentem-se contentes simplesmente em oferecer-lhes o amor de seus corações, buscando o seu bem-estar,. De maneira semelhante, a Brahmani, embora maravilhada com os freqüentes e extraordinários êxtases e com a manifestação de poderes no mestre, imediatamente esquecia sua importância, cega pelo amor maternal. Não é necessário dizer que a afeição filial autêntica do mestre por ela e sua absoluta dependência e fé nela não tiveram um papel pequeno ao levantar ondas ternas, embora austeras, de afeto maternal no coração da Sannyasini. Foi esse afeto maternal que a fez esquecer-se dos poderes dele e impeliu-a a suportar problemas para tornar o mestre feliz, protegendo-o das tiranias dos outros e ajudando-o em sua Sadhana naquela fase de sua vida.

4. Quando há oportunidade de ensinar um discípulo extraordinariamente brilhante, surge, naturalmente, no coração do Guru, um contentamento e uma satisfação supremos. A Brahmani jamais havia sonhado que, no mundo espiritual poderia nascer, na época atual, uma pessoa tão elevada e competente como o mestre. Por isso podemos imaginar a alegria que deve ter enchido o seu coração, ao ter a oportunidade de ensiná-lo. Não é de se admirar que ela estivesse tão ansiosa para que o mestre experimentasse, em pouco tempo, os resultados de seus estudos e austeridade.

5. Ouvimos do próprio mestre que ele havia perguntado à Mãe Divina sobre a justeza e necessidade das disciplinas, de acordo com os Tantras, antes de começar a praticá-las e que as havia feito com Sua permissão. Portanto, não foi simplesmente a ansiedade e a persuasão da Brahmani que o fizeram levar a cabo aqueles exercícios espirituais, mas também sua percepção interior, nascida da Sadhana. Essa percepção fez com que sentisse no fundo do seu coração que a oportunidade de alcançar o conhecimento imediato da Mãe Divina recorrendo aos métodos das escrituras, havia chegado. Assim, a mente concentrada de RamaKrishna, agora, adiantara-se rapidamente, movida pelo poder da aspiração, ao longo do caminho da Sadhana ensinada pela Brahmani. Não nos é possível, mortais comuns, sentir a medida e a intensidade daquela ansiedade porque, onde está aquela tranqüilidade e aquele direcionamento de nossas mentes para um só ponto, distraídos como somos por muitas e para muitas direções? Onde está em nós aquela coragem sem limites, para mergulharmos de cabeça no mar de consciência profunda e tocar seu fundo, em vez de sermos iludidos pelas faltas de suas ondas superficiais representadas pelos objetos da consciência normal? Onde está em nós o poder de erradicar o apego a todas as coisas do mundo, incluindo nossos próprios corpos e mergulhar, com total abandono, nas profundezas da interiorização espiritual para realizar o que o mestre nos recomendava repetidamente, ao dizer, “Mergulhem profundamente, mergulhem nas profundezas de vocês mesmos.” Soubemos que tomados pela angústia de seu coração, o Mestre esfregava o rosto nas margens de areia do Ganga, no Panchavati, dizendo. “Mãe, revela-Te,” e isso foi um dia ou dois? Persistiu inabalável e os dias passavam. Aquelas palavras apenas entram em nossos corações, mas não ocasionam ecos correspondentes em nossos corações. E como pode ser diferente? Temos a fé infantil do mestre, que tudo consome, na existência da Mãe Divina e na oportunidade de alcançar Sua visão renunciando a tudo e chamando-A com a mais profunda ansiedade do coração?

6. Um dia, em Kassipur, Shri RamaKrishna surpreendeu-nos ao falar da intensidade de seu anseio espiritual na época da Sadhana.
Testemunhamos o desejo ardente do Swami Vivekananda pela realização de Deus – como, o despertar espiritual lhe veio quando ia depositar a taxa para o exame de Direito: como, tomado por intenso anseio e esquecido do mundo, correu pela cidade como louco, descalço e coberto somente por uma simples peça de roupa, até chegar ao mestre e obter sua graça ao revelar-lhe a angústia de seu coração; como, desde então, dia e noite passava o tempo em Japa, meditação, canções religiosas e leituras e estudo espiritual; como, devido ao entusiasmo sem limite pela Sadhana, seu coração normalmente terno tornou-se duro, ficando indiferente ao sofrimento da mãe e dos irmãos; e como, avançando com devoção integral no caminho da Sadhana, determinado por seu preceptor, teve visão após visão, culminando por desfrutar a felicidade do Nirvikalpa Samadhi, após período de três ou quatro meses. Tudo isso ocorreu diante de nossos olhos e deixou-nos atônitos. Profundamente satisfeito, o mestre costumava exaltar a devoção extraordinária do Swami e sua ansiedade e entusiasmo pelas práticas espirituais. Um dia, naquela época, o mestre comparou o amor do Swami e seu entu­siasmo pela Sadhana, com os seus próprios e disse, “A devoção e entusiasmo de Narendra são realmente extraordinários, mas comparados com a ansiedade daqui (mostrando a si próprio), o seu é absolutamente comum. Não é nem um quarto daquele.” Pode imaginar a surpresa que sentimos com aquelas palavras do mestre?
Assim Shri RamaKrishna aceitou a sugestão da Mãe Universal, esqueceu tudo o mais e mergulhou na prática espiritual. A erudita Brahmani esforçou-se bastante para conseguir, de diversos lugares, os artigos necessários para certos ritos e deu ao mestre instruções relativas à sua aplicação.

7. Os crânios[1] de cinco seres mortos, inclusive o de um homem, foram trazidos de algum lugar, longe do Ganges; e dois altares [2] propícios às práticas Tântricas foram construídos, um sob a árvore Bilva, situado no limite norte do Templo e o outro, no Panchavati, plantado pelo próprio mestre. Sentado em qualquer um desses ‘crânios-assentos’, segundo a necessidade, o mestre passava o tempo em Japa, meditação, etc. Esse Sadhaka extraordinário e sua Guru não tiveram consciência, durante alguns meses, de quantos dias e quantas noites se passaram. O mestre costumava dizer,[3] “Durante o dia a Brahmani ia a diversos lugares, longe do Templo, apanhava e trazia artigos raros prescritos pelos Tantras. Colocando-os sob a árvore Bilva ou no Panchavati à noite, ela me chamava, ensinava-me a usar tais coisas e ajudava-me a fazer a adoração da Mãe Divina segundo as regras prescritas com sua ajuda, pedindo por fim, para mergulhar em Japa e meditação. Eu fazia tudo de acordo, mas tinha que fazer pouco Japa; porque, mal passava o rosário uma vez, mergulhava completamente em Samadhi e realizava os resultados próprios daqueles ritos. Assim não havia limite para minhas visões e experiências, todas extraordinárias. A Brahmani fez-me executar, uma após a outra, todas as disciplinas prescritas nos sessenta e quatro Tantras principais, todas difíceis de fazer e, ao tentar praticá-las, muitos Sadhakas fracassaram. Mas passei por todas elas com sucesso, pela graça da Mãe.

8. “Numa ocasião vi que a Brahmani havia trazido – ninguém sabia de onde – uma linda mulher, em plena juventude e disse-me, ‘Meu filho, adora-a como a Deusa.’ Quando a adora­ção terminou ela disse, ‘Sente-se em seu colo, meu filho, e faça Japa.’ Fui tomado de medo, chorei amargamente e disse à Mãe, ‘Ó Mãe, Ó Mãe! Mãe do Universo! Que ordem é essa que Tu dás àquele que tomou refúgio absoluto em Ti? Tem Teu fraco filho o poder de ser tão imprudentemente arrojado?’ Mas logo que disse isso, senti como se estivesse tomado por alguma força desconhecida e um vigor extraordinário encheu meu coração. Logo que acabei de me sentar no colo da mulher, pronunciando os Mantras, como hipnotizado, inconsciente do que estava fa­zendo, mergulhei completamente em Samadhi. Quando retomei à consciência, vi a Brahmani servindo-me com muito cuidado, tentando trazer-me à consciência normal. Ela disse, ‘O rito foi completado, meu filho; outros, com muita dificuldade conseguem controlar-se sob tais circunstâncias e então terminam o rito com Japa nominal somente por pouco tempo; mas você perdeu toda a consciência e esteve em Samadhi profundo.’ Ao ouvir isso tranqüilizei-me e comecei a saudar a Mãe repetidamente, com o coração grato por me ter permitido passar ileso por aquela prova.
“Noutra ocasião vi que a Brahmani havia cozinhado peixe no crânio de um cadáver e feito Tarpana. Pediu-me para fazer o mesmo e tomar aquele peixe. Assim o fiz e não senti qualquer aversão.

9. Mas no dia em que a Brahmani trouxe um pedaço de carne em decomposição e pediu-me que a tocasse com a língua depois do Tarpana, senti aversão e disse, ‘Isso pode ser feito?’ Assim indagada, ela respondeu, ‘O que há de mal, meu filho? Veja como faço.’ Assim, colocou um pedaço em sua boca e disse, ‘A aversão não deve ser cultivada,’ e colocou, novamente, um pouco diante de mim. Quando a vi agir assim, a idéia da terrível forma Chandika da Mãe Universal surgiu em minha mente e pronunciando repetidamente ‘Mãe’, entrei em BhavaSamadhi. Não senti então aversão quando a Brahmani colocou o pedaço em minha língua.

10. “Tendo assim me iniciado no Purnabhisheka, a Brahmani ordenou-me fazer, diariamente, os numerosos ritos Tântricos. Agora não me recordo de todos os detalhes, mas lembro-me do dia em que pude, pela graça da Mãe, assistir, com perfeita equanimidade, o prazer supremo de um casal de amantes, nada mais vendo do que o maravilhoso jogo do Divino. A mente em vez de descer à vizinhança dos sentimentos humanos comuns elevou-se cada vez mais alto, mergulhando, por fim, em Samadhi profundo. Depois de retomar à consciência normal, ouvi a Brahmani dizer, ‘Você alcançou o objetivo desejado de uma Sadhana Tântrica muito difícil e estabeleceu-se no estado divino. Esta é a última Sadhana da atitude ‘heróica’ de adoração.’
“Pouco tempo depois fiz a adoração da figura feminina segundo os ritos Tântricos, com a ajuda de uma outra Bhairavi, no hall aberto de música do Templo, na presença de todos, durante o dia. Quando terminei saudei-a segundo as prescrições dos Shastras. Esse foi o último rito relacionado com a atitude heróica de adoração, que completei daquela maneira. Mesmo que minha atitude mental a respeito de todas as mulheres, isto é, a de um filho para com sua mãe tenha permanecido inalterada durante toda a Sadhana Tântrica, assim também jamais pude experimentar uma gota de vinho naquela ocasião. A simples menção da palavra Madya (vinho) inspirava em mim a expe­riência da Causa Universal e eu me perdia nela completamente. De forma semelhante, logo que ouvia outras palavras daquele tipo, a Causa do Universo apresentava-Se diante de mim e eu entrava em Samadhi.

11. Um dia, enquanto ainda vivia em Dakshineswar, o mestre mencionou sua atitude filial em relação a todas as mulheres e contou-nos uma história dos Puranas. A história fala quão firmemente o conhecimento da relação filial com todas as mulheres, sem exceção estabeleceu-se no coração de Ganesha, o chefe dos iluminados. Antes de nos contarem aquela história, não tínhamos muita devoção e reverência por esse Deus barrigudo com cara de elefante, com suor escorregando das têmporas. Mas quando ouvimos a história dos lábios santos do mestre, ficamos convencidos que Ganesha era realmente digno de ser adorado antes de todos os deuses, como de fato o é. A história é como se segue:
Um dia Ganesha, com tenra idade, enquanto brincava, viu um gato em quem, por brincadeira, bateu, feriu e torturou de diversas maneiras. O gato conseguiu fugir com vida. Quando Ganesha se acalmou e foi até sua mãe, viu com surpresa, marcas de pancada em várias partes do sagrado corpo da Deusa. Muito desgostoso em ver aquele estado de sua mãe, o menino perguntou-lhe a razão. A Devi respondeu-lhe tristemente, “Você mesmo é a causa desta minha triste condição!” Mais triste do que surpreso, o dedicado Ganesha disse com lágrimas nos olhos, “Que estranho! Mãe, quando bati na senhora? Não me recordo que Sua criança, ignorante como é, tenha feito qualquer ato mau pelo qual a senhora tenha que sofrer insultos de alguém.”
Parvati Devi, cuja forma externa densa é o universo, disse: “Procure recordar se você bateu em algum ser vivo hoje.” “Sim”, disse Ganesha, “Eu bati num gato há pouco tempo.” Ganesha pensou que o dono do gato havia batido em sua mãe. A mãe de Ganesha tomou o rapaz arrependido em seus braços e consolou-o, dizendo, “Não é assim, meu filho, ninguém bateu em meu corpo; mas fui eu quem assumiu a forma de um gato; é por isso que está vendo as marcas de suas pancadas em mim. Você agiu sem saber; portanto, não se lamente; mas lembre-se, de hoje em diante, que todos os Jivas do mundo que têm forma feminina são partes de mim e os que têm forma masculina são partes de seu pai. Não há outras pessoas ou coisas no mundo a não ser Shiva e Shakti.” Ganesha teve fé naquelas palavras e guardou-as, como relíquias, no santuário do coração. Quando atingiu a idade de se casar, não consentiu em fazê-lo porque assim, teria que se casar com sua mãe. Ganesha perma­neceu um Brahmachari toda a vida e tornou-se o mais importante entre os seres iluminados, porquanto sempre teve no coração a certeza de que o universo era da natureza de Shiva e Shakti, Brahman e Seu Poder.

12. Depois dessa narrativa, o mestre contou-nos a seguinte história que também, revela a grandeza do conhecimento de Ganesha; mostrando certa vez o valioso colar de pedras preciosas em seu pescoço a Ganesha e Kartikeya, Parvati Devi disse-lhes, “Darei este colar àquele que andar em volta do Universo, compreendendo os quatorze mundos e voltar para mim, em primeiro lugar.” Kartikeya, Comandante do exército celestial, tendo como veículo um pavão, sorriu com certo desdém, pensando no corpo gordo, pesado e barrigudo do irmão , na pouca força e no movimento vagaroso do rato, sua montaria, ficando absolutamente certo de que o colar já era seu. Imediatamente começou a fazer a volta em torno do universo. Muito tempo depois da partida de Kartikeya, o tranqüilo Ganesha deixou seu lugar calmamente e vendo, com os olhos do conhecimento, que o universo era formado de Shiva e Shakti, localizado nos corpos de Hara e Parvati, circulou-os de maneira graciosa, adorou-os e sentou-se. Muito tempo depois, Kartikeya voltou. Satisfeita com o conhecimento e a devoção de Ganesha, Parvati Devi colocou o colar de pedras preciosas afetuosamente em seu pescoço como símbolo de Sua graça.
Assim mencionando a grandeza do conhecimento de Ganesha e sua relação filial com todas as mulheres sem exceção, Shri RamaKrishna disse, “Minha atitude com as mulheres é a mesma; é por isso que tive a visão da forma maternal da Causa do Universo em minha esposa e adorei-a, inclinando-me a seus pés.”

13. Não ouvimos falar de nenhum outro Sadhaka, em qualquer época que, mantendo intacta aquela atitude filial para com todas as mulheres, tenha adotado as disciplinas Tântricas segundo as regras prescritas para o modo heróico de adoração. Seguindo essa maneira heróica, os aspirantes têm, ao longo do tempo, tomado uma companheira por ocasião de sua Sadhana. Como não vêem qualquer aspirante da atitude heróica abrir mão dessa prática, as pessoas têm a firme convicção de que a realização do objetivo desejado da disciplina, isto é, alcançar a graça da Mãe Divina, é impossível sem essa prática. Tal idéia conferiu às escrituras conhecidas como Tantras, uma reputação desfavorável.
 
14. Somente o mestre, a Encarnação dessa época, veio estabelecer uma nova tradição a esse respeito, quando não manteve a companhia de uma mulher nem mesmo em sonho. Através da prática do Mestre da adoração heróica, apesar de manter a atitude filial para com todas as mulheres, um propósito oculto da Mãe é revelado.

15. O mestre disse, “Não levei mais de três dias para ser bem sucedido em qualquer das disciplinas. Quando escolhia uma determinada disciplina e importunava a Mãe Divina, com ardente ansiedade no coração, para realizar seu objetivo, Ela benignamente coroava-me de sucesso, dentro do curto período de três dias.” Está claramente provado que a presença de uma mulher não é auxiliar indispensável para aquelas práticas, porquanto o mestre foi bem sucedido naquelas disciplinas num período bem curto, sem utilizar uma mulher. A promessa dos Tantras que, pela prática contínua de seus ritos com uma companheira, um Sadhaka pode eventualmente alcançar o estado divino ou Divyabhava (estado acima da natureza do sexo), é somente uma concessão feita ao homem fraco e exemplo de cuidado para tornar sua disciplina acessível a todos. Jamais deve ser considerada uma prescrição obrigatória.

16. O objetivo comum a todas as práticas Tântricas é dar ao aspirante, através do autocontrole e perseverança, a certeza de que vista, gosto e outras experiências dos sentidos que tentam os seres humanos e acarretam-lhe repetidos nascimentos e mortes, impedindo-o de alcançar o conhecimento pela realização de Deus – nada mais são do que formas verdadeiras de Deus. Levando em consideração as diferenças na capacidade de autocontrole e no grau de certeza alcançado pelos aspirantes, os Tantras lidaram com três tipos diferentes de adoração, a saber, o “animal” ou Pashu, o “heróico” ou Vira e o “divino” ou Divya [4] e aconselham-nos a adorar Deus adotando o primeiro, o segundo ou o terceiro modo, de acordo com cada aptidão. Ao longo do tempo as pessoas esqueceram-se quase completamente que as práticas Tântricas frutificariam somente se os aspirantes observassem um austero autocontrole, como base daquelas disciplinas. Ao invés, cederam à sensualidade grosseira devido à sua fraqueza, mas sem o conhecimento adequado, as pessoas, contudo, começaram a culpar os Tantras pelos abusos de seus seguidores. O sucesso do mestre, mesmo mantendo a atitude filial em relação a todas as mulheres através dessas práticas, foi de grande benefício tanto para os aspirantes sinceros, como para as escrituras Tântricas – para os primeiros, ao mostrar-lhes o verdadeiro caminho para alcançarem o objetivo de suas vidas e para as escrituras, mostrando sua verdadeira glória e estabelecendo, firmemente sua autenticidade.

17. Embora o mestre tenha praticado as disciplinas, segundo os mistérios Tântricos durante três ou quatro anos, parece que ele não nos disse qual a ordem em que foram praticadas nem nos deu qualquer relato detalhado a esse respeito. Mas a fim de encorajar-nos no caminho da Sadhana, falou-nos sobre esses eventos em diversas ocasiões e, segundo as necessidades individuais, fez com que alguns raros entre nós fizéssemos aquelas práticas. A Mãe do Universo, parece, tornou o mestre familiarizado com esse caminho naquela época, porque se ele não tivesse tido as experiências fora do comum das práticas Tântricas, não teria sido capaz de detectar os estados mentais dos devotos, de diferentes naturezas, que vieram a ele, no final de sua vida e de conduzi-los no caminho da Sadhana. O mestre guiou, ao longo dos diversos caminhos de disciplinas, os devotos que vieram a ele e tomaram refúgio a seus pés.

18. Além de nos falar sobre as práticas Tântricas, Shri RamaKrishna às vezes contava muitas de suas visões e experiências. Uma mudança total ocorreu em sua natureza interior por ocasião de sua Sadhana Tântrica.

19. Ao saber que a Mãe Divina às vezes assumia a forma de um chacal e que o cachorro era o transporte da Bhairava, passou a considerar os restos da comida desses animais como puros e sagrados, comendo-os, sem hesitar, como Prasada.

20. Oferecendo, como oblações aos pés de lótus da Mãe Divina, seu corpo, sua mente, sua vida e tudo o mais, o mestre via-se incessantemente penetrado interna e externamente, pelo fogo do conhecimento.

21. O mestre viu nessa época o despertar da Kundalini prosseguindo até o alto da cabeça.. Todos os lótus, do Muladhara, o centro básico, até o Sahasrara de mil pétalas na cabeça, ergueram-se e desabrocharam plenamente. Logo que isto ocorreu, teve experiências estranhas e maravilhosas. Viu, por exemplo, que um ser celestial e luminoso atravessava o Sushumna, o Canal Central, até aquele lótus subindo e os fazia florescer ao tocá-los com a língua.

22. Certa vez, quando Swami Vivekananda sentou-se em meditação, apareceu diante dele, um muito grande e maravilhoso triângulo de luz que ele sentiu como se estivesse vivo. Um dia vindo a Dakshineswar, falou a Shri RamaKrishna a esse respeito e o mestre disse, “Muito bem, você viu o Brahmayoni; enquanto eu praticava Sadhana sob a árvore Bilva também o vi. E o que é mais, observei-o dando à luz a inúmeros mundos a cada momento.”

23. Por essa época o mestre ouviu, surgindo naturalmente e sem cessar, de todos os lugares do universo, o Anahata Dhvani, o grande som Pranava, que é formado de todos os diferentes sons do universo. Alguns entre nós, ouviram do próprio mestre que naquela época, ele podia compreender a linguagem dos animais.

24. Nesse período, Shri RamaKrishna viu a Própria Mãe Divina na forma feminina. No final desse tempo o mestre viu-se diante de poderes miraculosos, como o de tornar-se tão pequeno como o átomo. Um dia foi, a pedido de Hriday, até a Mãe Universal para saber a respeito da propriedade de usá-los e ouviu que deveriam ser rejeitados e descartados como fezes. O mestre disse que desde então, soava-lhe repugnante ouvir o termo ‘poder miraculoso’ (Siddhi). 
 
25. Estamos nos recordando de algo a respeito do mestre e os ‘oito poderes miraculosos’. Um dia chamou particularmente Swami Vivekananda ao Panchavati e disse-lhe, “Olhe. Tenho os bem conhecidos ‘oito poderes miraculosos.’ Há muito tempo, entretanto, decidi que jamais faria uso deles; nem sinto necessidade de usá-los. Como você terá muitas coisas a fazer, como pregar o Dharma; decidi dá-los a você; aqui estão.” Em resposta o Swami lhe disse, “Senhor, eles me ajudarão de algum modo a realizar Deus?” O mestre respondeu que não, mas que em certos trabalhos, como pregar religião, poderiam ser úteis. O Swami recusou-se a aceitá-los, para a imensa alegria do mestre.

26. O mestre, nessa época, desejou ver o poder de ilusão da Mãe do Universo. Em conseqüência viu uma figura feminina de extraordinária beleza surgindo das águas do Ganges e dirigindo-se, com um andar elegante, ao Panchavati. Em seguida, viu que aquela figura estava em adiantado estado de gravidez. Pouco tempo depois deu à luz a um lindo menino, em sua presença e logo amamentou-o com muito carinho; viu, contudo, que a mesma figura assumiu uma forma muito cruel e assustadora. Tomando o bebê em sua boca, mastigou-o e engoliu-o. Depois entrou nas águas do rio do qual havia surgido.

27. Além das visões acima mencionadas, não havia limite para o número de formas da Deusa, desde a de dois braços até a de dez braços, que viu naquele período. Assim também algumas conversaram com ele e instruíram-no. Embora todas aquelas formas da Mãe fossem extraordinariamente belas, disse-nos que não podiam comparar-se à de Sri Rajarajeswari, também chamada Shodashi. O Mestre dizia, “Vi, numa visão, a beleza da pessoa de Shodasi, que se diluía e se espalhava em volta, iluminando todos os lugares.” Naquela ocasião o mestre teve visões de várias formas masculinas como Bhairava e também, dos seres celestiais. Desde a época de sua Sadhana Tântrica houve tantas visões extraordinárias e experiências na vida do mestre dia após dia, que está além de nossa capacidade enumerá-las todas.

28. Ouvimos do mestre que desde a época da Sadhana Tântrica, o orifício de seu Sushumna foi completamente aberto e sua natureza transformada permanentemente na de um menino. Desde a última parte desse período ele não mais pôde conservar a roupa, o cordão sagrado etc., em seu corpo por nenhum momento, apesar de seus esforços. Não sentia onde, nem quando, todas essas coisas caíram. Não é necessário dizer que esse estado era causado pela ausência da consciência do corpo, devido ao fato de sua mente permanecer sempre absorvida nos pés de lótus da Mãe Divina. Soubemos pelo próprio RamaKrishna que, ao contrário dos Paramahamsas comuns, ele jamais foi um monge errante ou andou nu – e que esse estado lhe veio naturalmente com a perda gradual da consciência corpórea. O mestre dizia que, no final dessas disciplinas, seu conhecimento da não-dualidade em relação a todas as coisas aumentou tanto que sentia que tudo aquilo que considerava insignificante desde a infância parecia-lhe agora ser tão puro quanto as coisas mais puras. Afirmava, “As folhas do manjericão sagrado  (Tulasi) e as da Sajña pareciam-me igualmente sagradas.”

29. O esplendor da pessoa do mestre aumentou tanto em poucos anos desde aquela época, que ele tornou-se o centro de atração, o tempo todo. Como era destituído de egoísmo, orou à Mãe Divina várias ocasiões para libertá-lo daquela beleza celestial e implorando dizia, “Mãe, não necessito dessa beleza exterior; toma-a em seu lugar e dá-me beleza espiritual interior.” Esse pedido foi atendido mais tarde.

30. Assim como a Brahmani ajudou o mestre em sua Sadhana Tântrica, assim o mestre ajudou a Brahmani mais tarde a desenvolver sua vida espiritual. Sem a ajuda do mestre ela não poderia ter se estabelecido no estado divino. Seu nome era Yogeswari que, segundo Mestre, era parte de Yogamaya (poder místico do Senhor).
Alcançando os poderes divinos pela Sadhana Tântrica, o mestre soube que, pela graça da Mãe Divina, muitas pessoas viriam até ele nos últimos dias para cumprirem o objetivo de suas vidas, isto é, atingir a iluminação espiritual. Ele falou sobre isso a Hriday e a Mathur, que era extremamente dedicado a ele. Mathur respondeu, “Ótimo, Pai! Vamos todos nós nos divertir em sua companhia.”







[1] Agora ouve, Ó Rainha dos Devas, a melhor Sadhana com a ajuda dos crâ­nios, com a qual o Sadhaka alcança a meta suprema que é a Própria Devi, Ó Aquela de rosto excelente; “os três crânios” são os de um homem, de um búfalo e de um gato ou são “três crânios somente de um homem e as cabeças de chacal, de cobra, de cachorro e de um touro e, entre elas, a cabeça de um homem. Caso contrário, somente os cinco crânios de um homem são chamados, Ó Poderosa, em conjunto, “os cinco crânios”... E um altar, de um palmo quadrado, deve ser feito. Ou um altar de quatro cúbitos quadrados, Ó Devi, deve ser construído.” Yogini Tantra, Patala V.
[2] Os Sadhakas geralmente fazem um altar sobre as cinco cabeças enterradas e sentadas sobre ele, praticam Japa, meditação etc. Mas o mestre não falou-nos de “dois assentos de crânios”. Os três crânios humanos foram enterrados debaixo do altar, debaixo da árvore Bilva e cinco crânios de cinco espécies de seres mortos, enterrados debaixo daquele, no Panchavati. Em pouco tempo tornou-se perfeito em suas Sadhanas. Jogou aqueles crânios no Ganges e derrubou ambos os altares. Foram feitos “dois assentos” porque o assento dos “três crânios” era favorável à Sadhana ou porque o lugar sob a árvore Bilva era, naquela época, completamente solitário e portanto, mais adequado para as Sadhanas. Ou pode ser que nenhum fogo para o Homa pudesse ser aceso sob a árvore Bilva, devido à proximidade do depósito da “Companhia” (depósito do Governo da Índia).
[3] Damos aqui, de uma forma interligada, o que ouvimos do mestre por diversas vezes.
[4] O que se segue é importante para a classificação. Pashu ou o homem de men­talidade animal é aquele que não tem muito autocontrole. Provavelmente sucumbe aos objetos dos sentidos se for exposto a eles. Tem, portanto, que seguir estritamente, a prática da ‘virtude enclausurada’, isto é, de evitar expor-se aos objetos tentadores dos sentidos. As Sadhanas para ele são baseadas nesse princípio. O Vira ou Sadhaka heróico é aquele cujo poder de autocontrole está altamente desenvolvido, e cuja convicção nos ensinamentos dos Tantras, de que todas as manifestações da natureza – nobres, belas e sublimes, bem como as degradantes, tentadoras, terríficas e repulsivas – são expressões da Mãe Divina é desenvolvido o suficiente para que ele se mantenha impassível mesmo quando exposto a elas. É colocado nessas situações como teste de sua força e não, para sucumbir a elas sob o disfarce de piedade. O Divya ou personagem divino é aquele que provou sua força e visão interior e cuja natu­reza dos sentidos foi completamente divinizada. Vê Deus em tudo.


quarta-feira, 27 de março de 2019

Sadhana das formas iradas


               O Kaula Dharma é apresentado em sete “estágios” conforme a afinidade e competência (Adhikari) do Sadhaka. O Guru “apresenta” o trabalho nestes estágios na medida em que certas características se demonstram no Sadhaka. Estes estágios, em ordem de aprofundamento, são: Vedikachara, Vaishnavachara, Shaivachara, Dakshinachara, Vamachara, Siddhantachara e Kaulachara. Os quatro primeiros estágios (Vedikachara, Vaishnavachara, Shaivachara e Dakshinachara) estão associados ao momento espiritual de PraVrtti quando a alma busca compreender e realizar-se no plano material, ou seja, ser bem sucedida na obtenção de Dharma, Artha e Kama. Quando essa busca está amadurecida (mas não necessariamente realizada) surge a afinidade com as aspirações espirituais e a tendência (Vikalpa) ao retorno a Divindade (Moksha). Este “retorno à Divindade” só é possível na medida em que a alma já não anseia mais pelas experiências no mundo e as ações não são mais executadas visando o proveito próprio mas apenas para o cumprimento do Dharma. Para este momento espiritual que é chamado de NiVrtti são prescritas as disciplinas do Vamachara, Siddhantachara e Kaulachara. Em linhas gerais nos referimos aos quatro primeiros estágios como DakshinaMarga e aos três ultimos como VamaMarga.

               Atentemos que Kaula Dharma e Kaulachara são termos diferentes embora associados. O Kaulachara é o conjunto de disciplinas espirituais (Sadhanas) únicas que acabaram por se tornar características do Kaula Dharma. Estas Sadhanas incluem o oferecimento dos PanchaMakaras à Divindade, Kapala Sadhanas entre outras. A usurpação destas disciplinas espirituais para o deleite e prazer de indivíduos incapazes obtê-los sem o disfarce de “pessoas espiritualizadas” é o que trouxe má fama ao Tantra no Ocidente onde surgiram “terapias” e “massagens” que não possuem nenhuma referencia nas escrituras e nem compatibilidade com o cotidiano de um Sadhaka. O Kaula Dharma é o conjunto das Sadhanas dos sete estágios descritos, Sadhanas estas que são aplicadas conforme oportuno e relevante para o desenvolvimento do Sadhaka. Portanto Kaula Dharma não é um sinônimo de Vamachara (VamaMarga) embora nos seus níveis mais profundos faça uso destas disciplinas. Há escolas Tântricas que assimilaram elementos do Kulachara e também praticam seus ritos mas estas possuem outras características que lhes são próprias e são distintas do Kaula Dharma descrito nos Kaula Tantras.

               É à partir do acréscimo das disciplinas espirituais de Vamachara e Siddhantachara para o grupo de disciplinas pessoais que já eram praticadas pelo adepto que o trabalho com as formas iradas da Divindade torna-se mais intenso. Estas formas iradas e aterrorizantes (Bhaya Murti) são trazidas para o Sadhaka que já foi treinado nas disciplinas anteriores e elas o convidam à “Busca pela Verdade” (SatTarka). Devemos entender que estas formas representam tudo aquilo que é assustador ao ego do adepto que, ao enfrentá-las, torna-se “Vira”, um “herói”. Estas formas iradas não são uma simples alegoria e não devem ser tratadas como um vídeo game ou fantasia teatral. Na Sadhana elas tornam-se reais personificando o que é temido e apontando tudo aquilo que é desagradável ao ego – “Eu não sou tão competente como gostaria de ser”; “Eu não sou tão bom/forte/belo quanto gostaria de ser” etc .... O Sadhaka é então confrontado à superar a fantasia de que tudo aconteceria de forma perfeita se você apenas “pensar positivo”. Ele percebe que o mundo, manifestação da Shakti Suprema, é “real” e não tem que se sujeitar as nossas crenças sobre ele. Shakti, a Força Espiritual que rege o mundo segue as suas próprias regras que se manifestam na força da gravidade, termodinâmica e outras propriedades da Física assim como nas regras de outras forças mais sutis ainda não foram devidamente estudadas pela nossa ciência. O Tantra reconhece a impermanencia da criação diante de Brahman, o Absoluto, porém a visão da "realidade" do mundo é uma ferramenta importante para gerar gerar certos resultados na Sadhana.

               O “valente” que não sente apreensão ao realizar as Sadhanas das formas iradas não colhe os frutos desta ação. Ele perde uma valiosa oportunidade de crescimento pessoal e de aproximação à Moksha, a Libertação Final. Um dos perigos sutis na jornada espiritual através das Sadhanas Tântricas é a crença de que os obstáculos foram totalmente superados e que as mais altas realizações foram alcançadas. Esta auto-ilusão gera a estagnação pessoal e a conseqüente indisciplina e irreverência diante da Sadhana, o adepto então cai das alturas conquistadas e passa à ver a realização como mero fruto do acaso ou como uma embriagues temporária. É mais fácil candidatar-se à iniciação ao Kaula Dharma e alcançá-la do que manter-se devidamente, como um iniciado, ao longo do tempo.

               As disciplinas espirituais de cada Dharma possuem um começo, um meio e um fim e o fruto de sua realização só é alcançado através da prática consistente baseada no correto entendimento dos princípios que são ali aplicados. A mistura aleatória ou caprichosa de sistemas independentes, quer seja em suas práticas ou em seus conceitos, acaba por se tornar um obstáculo nos níveis mais profundos destes mesmos sistemas. A prática de recitar Mantras, por exemplo, é comum a maioria das tradições espiritualizadas entretanto, nas disciplinas espirituais mais profundas e reservadas, cada tradição terá suas próprias perspectivas e aspectos únicos.

               A prática das Sadhanas das Deidades Iradas possui regras especificas que permitem que as energias geradas atuem de forma positiva na vida do Sadhaka. O descumprimento destas regras libera forças que podem atuar de forma diversa ao que foi prescrito trazendo revés, má sorte e desventura. No meio espiritual é comum vermos o surgimento de aventureiros trazendo supostos grandes conhecimentos e que, depois de algum tempo, desaparecem tragados pelos problemas em suas vidas pessoais. A má sorte, falta de longevidade e infortúnio não são frutos gerados pela correta Sadhana das formas iradas da Divindade.

Jaya Bhairava.


terça-feira, 5 de março de 2019

Etiqueta básica em Templos


               Muitos interessados no Dharma gostariam de visitar um Templo que siga as prescrições tradicionais mas sentem-se desconfortáveis com a possibilidade de “cometer alguma gaffe”. Este pequeno guia traz algumas dicas para a sua visita.

               Alguns cuidados são relevantes para todos.
               Os Templos são a residência de formas especificas da Divindade e os devotos vão lá para ter o Darshana, ou seja, a visão espiritual, destas formas. Portanto não vá aos Templos de mãos vazias. Flores, frutas, um saco de arroz cru, uma caixinha de leite ou de canfora são itens sempre usados e benvindos.
               Use roupas confortáveis mas que mantenham o devido decoro, lembre-se que talvez tenha que sentar-se no chão durante algum tempo. As meias devem estar limpas. Os sapatos serão tirados nos locais onde acontecem as cerimônias. Evite apontar as solas dos pés em direção às representações da Divindade.
               Diante da representação da Divindade evite conversas vãs, muitos estarão ali para recitar silenciosamente os Mantras de sua Sadhana e interferências devem ser evitadas.
               Em várias tradições as Deidades são adoradas com Mantras específicos que o leigo não teve acesso, portanto se desejar uma Puja ou qualquer outro ritual solicite a presença de um Pujari autorizado que saberá quais Mantras usar.

               Além do que se aplica à todos podemos comentar sobre a etiqueta de boa conduta entre os membros da família espiritual (ou aqueles interessados em sê-lo).
               Há muita coisa à se fazer num local de adoração. Ofereça-se como voluntário para auxiliar no que for necessário. Este serviço devocional voluntário é chamado de Seva e é essencial para manter o bom andamento das atividades. Varrer o local, limpar os metais do altar, fazer os arranjos de flores ou ajudar a servir a Prasada aos visitantes são atividades que podem ser feitas por todos e não desmerecem ninguém ao fazê-lo.


No vídeo: Pujaris (sacerdotes) do Templo de MahaKaleshvara (uma das formas do Senhor Shiva) limpam o Garbha Grha (Sanctum Santorum do Templo) antes da Puja.
              



domingo, 3 de março de 2019

Maha Shiva Ratri


               O MahaShivaRatri, ou seja, “a Grande Noite de Shiva” é o maior festival anual dedicado ao Senhor Shiva. Há festivais menores celebrados mensalmente, estes são conhecidos apenas como “ShivaRatri”. Todo ShivaRatri acontece numa única noite que é a décima quarta noite (Chaturdashi) da quinzena escura (Krishna Paksha) de cada mês lunar. Esta noite precede a noite do Amavasya (Lua Negra, Lua Nova) que é o momento astrológico de conjunção da Lua (Senhor Shiva) com o Sol (Shakti, a Deusa). Este momento do ciclo lunar mensal é belamente narrado nas escrituras Pauranikas (Puranas) como o “casamento” de Shiva e Parvati que naturalmente antecede a sua “união” da noite seguinte. O MahaShivaRatri é celebrado no mês Védico de Magha.

               O festival de MahaShivaRatri é uma Naimittika Puja, ou seja, uma celebração, uma Puja, feita fora dos padrões rotineiros. Esta outra é chamada de Nitya Puja, ou seja, uma Puja de rotina. O que transforma uma data qualquer em uma data de festival é a nossa conexão, o nosso alinhamento com os motivos daquela celebração da mesma forma que a data da celebração das Bodas de Prata (25 anos de casamento) do senhor e senhora Albuquerque só são significativos para as suas famílias e amigos. É o nosso poder espiritual de consagração que torna momentos, pessoas ou objetos especiais. O festival só acontece para aqueles que agem e tornam aquele dia um dia diferente; um Guru só está presente para aqueles que consagraram um homem ou mulher comuns como representantes de Shiva e Shakti; uma estátua só deixa de ser um mero objeto de decoração e torna-se uma Murti (materialização da Divindade) entre aqueles que dedicaram a ela seu carinho especial através dos ritos prescritos.

               A maneira mais simples de festejar o MahaShivaRatri é recitar o Panchakshara Mantra (Mantra de cinco silabas) do Senhor Shiva – NamaH Shivaya. Para aqueles devotos que já o fazem diariamente há a opção de aumentar o numero de repetições ou realizar as Pujas e Abhishekas que já sabem como fazer. O momento de um festival não é adequado para “testar” a realização de uma Puja ou qualquer outro procedimento que já não seja conhecido. Este aprendizado e familiarização devem ser feitos previamente em momento oportuno e sob orientação adequada.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Puja e os cinco sentidos


Devota realiza Puja com essência, flores, incenso, lamparinas e alimentos. (Panchopachara Puja)



Namaste amigos,

Para viver o Dharma, ou seja, usufruir de seus frutos em nossas vidas devemos praticá-lo. Não é apenas a leitura de textos que demonstra a nossa gratidão as Deidades. È a prática devidamente orientada que traz à vida as divinas opulências e abre nossos corações à Força Espiritual da Divindade.

“... nos fez também capazes de ser sacerdotes de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito, porque a letra mata e o espírito vivifica.”
São Paulo, em sua carta aos Gregos da cidade de Corinto.
II Coríntios, III, verso 6.

A Guru Shree Maa do Templo Devi Mandir afirma: “Cada casa é um Templo e os seus ocupantes são os sacerdotes”.

Ora, a primeira pergunta que nos vem à mente é: “O que fazem os sacerdotes ?”, “Será que eles passam os dias apenas lendo livros ?”. De forma alguma ! Os sacerdotes praticam suas disciplinas espirituais, suas Sadhanas para concentrar a sua Força Espiritual, a sua Shakti.  Então, fazem os rituais externos (Bahya Puja) que expandem a Shakti acumulada e inundam o mundo com suas bênçãos. Seguir o Dharma é estar espiritualmente vivo, ou seja, concentrar e expandir, como o fazem todos os organismos vivos.


Ler repetidamente um mesmo livro não gera nenhum fruto se não houver prática.


O Dharma é um estilo de vida baseado numa lógica muito profunda que leva em consideração vários elementos sutis que não são normalmente percebidos pela maioria dos homens. Para praticar adequadamente o Dharma devemos superar superstições e crendices muito comuns como aquela que alega que a Divindade não poderia ser adorada através de suas Divinas representações, suas Murtis.

“Da mesma forma que o leite é produzido através de elementos do corpo inteiro de uma vaca porém só é extraído através de suas tetas, o Supremo Atman, apesar de omnipresente, só se manifesta através das representações da Divindade, ou seja, das suas Murtis.”
Mantra Yoga Samhita

Os vícios de caráter também devem ser superados para ter uma vida harmoniosa e uma espiritualidade sadia. A avareza, por exemplo, alimenta a crendice de que a adoração insípida seria agradável à Divindade pois ali não há custos e nenhum dinheiro é gasto. Adoração insípida é aquela onde não há nenhuma gratidão pela opulência recebida, é aquela onde o devoto se apresenta de mãos vazias esquecendo-se de que tudo o que existe veio da Divina Mãe do Universo. Ali não há lamparinas (ou velas), não há incenso, não há alimentos ...... não há nada além de soberba e encenação.

“o jesus saiu e ocultou-se deles ...”. verso 36
“Cegou os seus olhos e endureceu seus corações, de modo que não enxergam com os olhos e não entendem com o coração”. verso 40
Evangelho do apóstolo São João XII.

As opulências da Divindade são percebidas através do auxilio dos nossos sentidos. É a nossa visão encantada pelo brilho dourado da lamparina que nos lembra da Divindade. É o nosso olfato embriagado pelo aroma do incenso que nos lembra que a Divindade está em todos os lugares. É o nosso paladar saudoso dos sabores esplendidos das frutas e alimentos sobre o altar que nos remete à alegria de saber que a divindade está sempre próxima à nós. O altar vazio cega os olhos, entope nossas narinas e corta nossas línguas nos tornando mortos-vivos incapazes de entender que a Divindade está em todos os lugares.


Cena de filme: morto-vivo ajoelhado mas nada muda ao seu redor. 

Antes de qualquer disciplina espiritual, de qualquer Sadhana, consagre aquele momento para que se torne um momento especial. Algumas dicas podem ajudar bastante. Todas estas podem ser acompanhados de Mantras específicos usados nestas ocasiões, estes Mantras podem ser aprendidos direto de seus Gurus.

1. Tome um banho antes de começar. Mesmo uma simples recitação de Mantras adquire uma nova energia com um banho prévio. Caso um banho não seja oportuno, lavar o rosto é aconselhável.
2. Logo no começo de sua disciplina acenda uma lamparina de ghee, de óleo ou uma vela. Faça isso mesmo em rituais feitos durante o dia. Tenha também uma vareta acesa de um incenso de boa qualidade.
3. A presença de algum alimento no local onde se recita Mantras é sempre muito auspiciosa. A maneira mais simples de fazê-lo é ter uma pequena bandeja de frutas, ou até mesmo apenas uma fruta. Há regras especiais para a presença de alimentos cozidos no altar, caso não conheça esses detalhes é melhor deixar este procedimento para quando estiver mais experiente. Ao final da prática pode consumir os alimentos ou distribuí-los entre aqueles que lhe são queridos.

Jaya Maa.