terça-feira, 20 de junho de 2017

Falsas Acusações



               Namaste. Um fato muito freqüente e comum na vida de um iniciado é ser alvo de falsas acusações. Em algum momento, por força das suas disciplinas espirituais (Sadhanas), haverá o ataque de acusadores. Estas acusações são sintomas de “Vighna-Ganas”, ou seja, de “serviçais da obstrução”. Muitos Mantras são dedicados a superar a atuação destes Vighna-Ganas que tem Ganesha como seu senhor. O objetivo destes obstrutores é retirar o foco do Sadhaka de suas disciplinas espirituais e desaloja-lo do centro de sua Mandala pessoal, que representa o mapa de suas prioridades em vida. Ao tentar distrair o iniciado, os acusadores buscam colocar a preocupação com a própria reputação como prioridade de uma vida. Se o Sadhaka for vencido neste ataque o (pequeno) ego toma o lugar das mais altas inspirações e do Ideal de Perfeição (Ishta Devata) e, assim, ele perde uma parte de sua força espiritual (Shakti) e de seus méritos (Punya).






               O Sadhaka não deve ter seu foco na reação à acusação mas apenas na exposição dos fatos de maneira impessoal, clara e racional. Não se deve também permitir ao acusador o acesso a sua vida pessoal através do comentário de dados íntimos. Ao agir desta forma o Sadhaka estaria apenas abrindo suas defesas e oferecendo elementos para novos ataques futuros. Reagir a uma falsa acusação é abdicar de sua liberdade e autonomia (Aishvarya) em nome de valores e/ou perspectivas de terceiros. Se após a exposição dos fatos o acusador continuar suas atividades fica claro que o que está em jogo não é uma “busca pela verdade” mas sim a tentativa de tirar o Sadhaka de seu foco. Então começa a parte interessante, ;) . Os Vighna-Ganas são valiosos serviçais na limpeza da Mandala pessoal do iniciado. É também através das falsas acusações que se separam os elementos que tem afinidade com a vida espiritual dos demais que querem apenas satisfação egóica. Portanto devemos deixar os acusadores livres para fazer seu serviço de limpeza. Esta técnica espiritual (Kriya) é exemplificada no Ocidente através do livro do Levitico (um dos que compõem o conjunto conhecido como “bíblia”). Lá um bode branco e puro, cheio de méritos (Punya) e livre de demérito (Papa) é oferecido em sacrifício ao deus Jeová enquanto um bode negro carregado de culpa e de acusações é deixado livre para vagar e fazer o seu “serviço”, ou seja, limpar o campo de ação de elementos indesejados e auxiliar os iniciados a fortalecer o seu foco nas atividades que acumulam méritos espirituais (Punya).

               Conheci um iniciado que não havia sido abençoado com a presença de acusadores a sua volta e que inventava e divulgava falsas acusações contra si-mesmo. ;) Isso é relativamente fácil num mundo virtual .... Após a divulgação das mentiras ele “amaldiçoava” seus alunos que não haviam defendido-o e informava que a “maldição” só seria removida através da recitação de 108 repetições do Gayatri Mantra. Ahhh, que doce brincadeira. Tal qual um carinhoso pai que se veste de coelho e esconde os ovos de chocolate no festival da segunda Lua cheia após o Carnaval, e depois deixa as crianças correrem para achar as guloseimas, ele se dava ao trabalho de criar toda uma encenação para estimular seus alunos a recitar o Gayatri. Este é um exemplo do universo das Lilas, dos passatempos espirituais, presentes nos Tantras e que são difíceis de entender sob a perspectiva do não-iniciado (Pashu).

               Há uma narrativa interessante no Dharma que nos leva a reflexão sobre Karma e o “jogo” de acumulo de mérito (Punya) e demérito (Papa). Havia uma pequena aldeia onde moravam um sacerdote (Brahmane) e uma prostituta. O Brahmane ficava indignado com o comportamento da mulher que não tinha meios para seu sustento e lhe disse: - “A cada homem que entrar em sua casa eu colocarei uma pedra ao lado desta arvore”. Desta forma o Brahmane abriu mão de suas disciplinas espirituais e passou a se dedicar apenas a buscar as falhas no comportamento da mulher. Enquanto isso. ela ficava em sua casa recitando o Mantra do Senhor Shiva, pedindo perdão por seu demérito (Papa) ao ver a montanha de pedras que se acumulava ao lado da arvore. No momento devido, o Senhor Yama, o Deus da Morte, enviou seus emissários para buscar o Brahmane e a prostituta. No julgamento das almas, que é feito através das ações realizadas, Yama destinou o Brahmane a uma estadia no inferno até a sua próxima reencarnação e deu a prostituta um período num dos paraísos celestiais até que chegasse o momento de sua reencarnação. Diante disso o Brahmane protestou desesperadamente e Yama lhe explicou que enquanto ele havia abandonado seus deveres (uma vida de ação e Aishvarya) para apenas observar e acusar a prostituta (uma vida de reação e sem autonomia), ela se dedicava ativamente a propiciar o Senhor Shiva através de seus Mantras e, devido a esta disciplina espiritual, ela atraiu sobre si todos os méritos acumulados pelo Brahmane e assim conquistou um destino melhor.

               Não nos incomodemos com aqueles que espalham falsas acusações, não devemos entrar em estado de afinidade com seu ódio e espírito de obstrução. Que eles façam seu serviço de limpeza de nossa Mandala pessoal enquanto nos dedicamos a atividades mais importantes. Jaya Maa.


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