terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Ritual - Expressão de Vida Plena



O Ritual – Expressão de uma espiritualidade equilibrada


O que são rituais e por que as pessoas os fariam ?
Para respondermos estas perguntas devemos mergulhar um pouco mais fundo na sabedoria milenar expressa nos Vedas, no Yoga e nos Tantras. Segundo estas tradições o Universo se manifesta através de três atributos básicos que são chamados de Gunas (vide Bhagavad Gita principalmente capítulos XIV e XVII). Esses Gunas são: Sattvas – a vibração em equilíbrio, Rajas – a vibração em mudança e Tamas – a vibração em inércia. Entretanto a Divindade imanifesta é TriGunatmika, ou seja, está além da manifestação destas vibrações. Estar vivo, estar no mundo material junto as pessoas que amamos e que nos relacionamos só é possível devido à atuação destes Gunas.  Não vamos detalhar aqui as características de cada um deles pois o estudante sincero pode estuda-los diretamente na Bhagavad Gita e em outros textos. Mas vamos comentar sobre as forças espirituais, as Shaktis, que atuam à partir destes Gunas.

Os Tantras comentam sobre três Shaktis: Jñana Shakti – aquela com predomínio de Sattvas Guna e que está ligada ao conhecimento; Kriya Shakti – aquela com predomínio de Rajas e que está relacionada à ação e Iccha Shakti – aquela com predomínio de Tamas Guna e que está ligada a vontade. Há um ditado Tantrico que afirma que o próprio Senhor Shiva sem Shakti, sem força espiritual, seria um cadáver (Shava).  शिवश्शक्तिना विना शवः  ŚivaśŚaktinā vinā Śavaḥ   || . Imaginemos o homem ...... sem Shakti não lhe é possível viver em plenitude. Em nossas vidas Jñana Shakti se manifesta como o amor pelo conhecimento, como o carinho em preservar o saber. Kriya Shakti se manifesta pelo ímpeto de realizar, pela coragem de empreender e pelo respeito pelo esforço que constrói aquilo que é lindo. Iccha Shakti se manifesta pela motivação e pela perseverança. Ela é aquela determinação que mantém a chama da vida acesa em nossos corações. Quando se diz que alguém “tem Shakti”, tem força espiritual, nos referirmos à abundancia destas qualidades que garantem uma vida plena e harmoniosa.

Por outro lado, a carência desta força espiritual, destas Shaktis, é a responsável por inúmeras mazelas ao gênero humano. A distância de Jñana Shakti nos dificulta o estudo e a compreensão, sem ela nos tornamos superficiais e levianos. Sem Kriya Shakti as ações se tornam um peso em nossas vidas e vemos dificuldade em tudo, a preguiça se apodera da alma. A distância de Iccha Shakti quebra a vontade e a determinação e o homem cai em depressão sem perceber motivos para viver e celebrar a vida. A presença destas Shaktis em nossas vidas é garantia de realização e nós as evocamos constantemente – ao pegar um livro e estudá-lo reverenciamos Jñana Shakti, ao celebrarmos cada realização prestamos reverência à Kriya Shakti e ao abrirmos os olhos pela manhã e sorrirmos, cheios de planos e esperanças, estamos louvando Iccha Shakti.

Dentre estas Shaktis uma é especialmente relevante – Kriya Shakti, a ação ! Pois é a ação que demonstra a sinceridade de qualquer desejo, é a ação que põe à prova o verdadeiro conhecimento. Sem a ação tudo se torna um mundo de faz-de-conta. Há tradições que afirmam: “Eu vos conhecerei pelos seus frutos !”, ou seja, não pelas suas intenções nem pelas suas palavras tiradas de livros de auto-ajuda mas sim por aquilo que você faz. Só saberemos se a arvore foi devidamente regada durante o ano quando, na estação certa, ela agir – florescer e produzir frutos. Sabemos que os pássaros estão bem alimentados e saudáveis quando, pela manhã, eles agem – eles cantam. Sabemos que o homem está feliz e realizado quando ele age – ele celebra ! Esta celebração é o ritual, é o esforço de tornar cada momento um momento especial e dar sabor, cor e brilho à nossas vidas. O ritual é a celebração da alegria e do privilégio de ser bem sucedido – quem são os pais que, tendo condições, se negariam à celebrar o aniversário de 15 anos de sua linda filha ? Quem não se deleita com este ritual ? Vamos tomar um belo banho e nos perfumar, vamos vestir roupas especiais, vamos preparar pratos dedicados para este evento, falar palavras bonitas que demonstrem nossa homenagem, cantar, dançar e celebrar ...... isso é um ritual !

Da mesma forma que o homem ignorante tende a se afastar dos estudos e o homem fraco tende à se afastar do esforço, o homem sem devoção e sem apreço pela Divindade tende à se afastar dos rituais. Estas fraquezas geradas pela distancia das forças espirituais, das Shaktis, só podem ser curadas pela disciplina (pela Sadhana). O homem sem estudo deve implementar uma rotina de leitura e reflexão para progredir em sua vida, o homem fraco deve treinar com pesos e exercícios para ganhar resistência e força; e o homem sem fé e sem convicções deve fazer os rituais que celebram a Divindade em cada momento de sua vida. São as ações que separam os embusteiros dos homens de verdade, capazes de realizar e mudar o mundo.

A tristeza não se cura com um sorriso falso e dissimulado, beber uma simples taça de vinho nos remete à uma alegria natural e espontânea. Falar do peixe ou da carne nunca matou a fome de ninguém é o seu consumo que nos sacia. Agir ..... abraçar e beijar a pessoa amada é o que torna os nossos dias especiais e não o blá blá blá dos impotentes e desinteressados. Vamos celebrar, fazer nossos rituais e desfrutar do privilégio de poder agradecer à Divindade diariamente.

Que Mãe Kali nos abençoe



domingo, 12 de fevereiro de 2017

Pureza Ritual, Prayashchitta e Kshamapanam


Pureza Ritual, Prayashchitta e Kshamapana

Quanto a sua regularidade os ritos podem ser classificados em três aspectos: Nitya – aqueles que são expressão de nossa devoção e que refletem nosso estilo de vida e, portanto, devem ser realizados diariamente, Naimittika – aqueles que são realizados em ocasiões especiais e formam um alicerce para a consecução das atividades em questão e Kamya – aqueles que são realizados apenas para conquistar um objetivo especifico. Em todos estes a pureza ritual é um fator importante pois ela interfere diretamente nos resultados que serão obtidos da mesma maneira que os critérios de higiene adotados por um cirurgião influenciam diretamente o risco de infecções hospitalares e uma eventual falha no tratamento.

A purificação inadequada no caso de um rito Nitya pode produzir a associação com forças alheias á natureza do rito (Dosha), ou seja, o devoto acha que está adorando e se relacionando com uma Deidade e, na verdade, está apenas alimentando forças ilusórias. Várias tradições espirituais reconhecem a possibilidade de que um “obsessor”/”demônio” venha à se passar por  um Ser elevado e se aproprie de suas oferendas. Os Kriyas, os atos rituais, que evitam este risco são: a purificação do espaço do rito (Dvara Puja, Bhumi Puja...) e a clara identificação do destinatário das oferendas (recitação do Dhyanam e, portanto, a criação de uma clara visualização da Deidade e a recitação do respectivo Gayatri Mantra, ou seja, a compreensão da Deidade em seus três momentos distintos).

No caso de um rito Naimittika a impureza (Chidram) pode reduzir o resultado alcançado da mesma forma que um alicerce mal feito reduz a resistência de uma construção. Ritos importantes como a  consagração de uma representação da Divindade (Prana Pratishtha) ou uma iniciação (Diksha) precisam de ritos auxiliares (Anga Kriyas) para que todos os aspectos relevantes sejam alcançados – não basta que o novo iniciado seja veiculo das forças evocadas (que é o foco da iniciação), ele deve também ter uma vida equilibrada, com saúde e sucesso (Siddhi) em suas aspirações.

Num rito Kamya o cuidado com a purificação prévia deve ser ainda mais criterioso. Uma eventual impureza (Dosha/Chidram) pode levar a resultados opostos àqueles esperados. A narrativa da vingança da Asuri Diti contra o Deus Indra (vide Agni Purana XIX) é um alerta à este risco:
“ Nas inúmeras batalhas dos Devas contra os Asuras ocorreram várias perdas. Diti, uma Asuri, era a mãe de muitos Asuras que foram vencidos por Indra e, magoada, ela montou um plano de vingança. Ela propiciou o sábio (Rshi) Kashyapa para que tivesse um filho que se tornaria o destruidor de Indra. Então, após muitas disciplinas espirituais (Tapasya) ela engravidou ...... Entretanto ela foi negligente em suas purificações prévias e, aproveitando-se desta falha, Indra obteve acesso ao seu ventre e lá desalojou o futuro filho e o transformou nos 49 Maruts que tornaram-se seus assistentes.” Ou seja, o resultado obtido por Diti foi o oposto daquele que foi desejado devido à sua desatenção nas purificações necessárias.

A correção de eventuais falhas rituais é feita através de um procedimento chamado “Prayashchitta” (“expiação”). Nele o devoto vai ao principal fundamento de uma prática, à própria raiz dela, e lá tenta corrigir eventuais falhas. Um exemplo muitíssimo comum, embora pouco compreendido pode ilustrar essa prática: no rito de AgniHotra o adepto recita dois Mantras – para Surya durante o dia ou para Agni Deva durante a noite e após estes Mantras ele oferece uma oblação de ghee à Prajapati. Esta oblação é um Prayashchitta feito para superar eventuais falhas na oblação anterior (à Surya Deva ou à Agni Deva). Mas ...... Por que ? Prajapati foi quem estabeleceu todos os Yajñas, todos os ritos, inclusive o AgniHotra, e a oblação feita à ele é uma generosa lembrança para agradece-lo pelo privilégio de participar diretamente na obra da criação. O conhecimento adequado (Jñana) associado a vontade sincera (Iccha) e a ação que os reafirma (Kriya) geram os méritos que purificam todo o AgniHotra através do Mantra e oblação de Prajapati.

A prática do Prayashchitta tem uma expressão muito comum que é a recitação do Kshamapana, a obtenção da competência. Esta recitação pode ser tão complexa quanto um hino (Stotra) ou tão simples quanto um pequeno verso (Shloka). Para o devoto dualista está prática é vista como um “pedido de perdão à Divindade” pelos eventuais erros, para o adepto não-dualista (Advaita) ela é vista como a reflexão de que todos os aspectos relevantes de sua ação não puderam ser deixados explícitos, ou por falta de tempo, de recursos ou de conhecimento. Mas, em ambas as perspectivas a prática é idêntica. Esta é mais uma bela característica do Dharma – embora sob perspectivas diferentes todos se envolvem nas mesmas ações. Jaya Maa.





A estória de Joãozinho


A estória de Joãozinho

Joãozinho era uma pessoa simples mas tinha uma intensa busca espiritual. Ele buscava respostas para as duvidas em seu coração e um belo dia Joãozinho encontrou uma comunidade Católica no FaceBook. Ele nunca tinha entrado numa igreja, nunca tinha sequer visto uma pessoalmente mas achou tudo aquilo muito lindo ..... Logo no dia seguinte Joãozinho espalhou para todos os seus amiguinhos que ele era católico e que os ensinaria sobre aquela bela religião. Na semana seguinte Joãozinho já se preparava para rezar a sua primeira missa e pensava em mudar o nome de seu perfil para Bispo Joãozinho......

Imaginar uma situação patética como esta é engraçado e ninguém poderia supor que  pudesse ser real ........ mas é o que pode acontecer com religiões de locais distantes como o Sanatana Dharma (Hinduismo) ou o Tantra Hindu ou Budista. O sujeito nada sabe mas se apresenta com um perfil de liderança.  - Mas, como ele consegue simular um conhecimento que  ele não tem ?  - Ele usa jargões simples e superficiais como: “Não precisamos de instrução !”, “Siga seu próprio coração !”, “Cada um interpreta como quiser !” (Sola Scriptura) ...... Distorcendo uma parte da Verdade para esconder sua ignorância.

Pessoas assim não são católicas, não são Budistas e nem sequer Hindus. A sua fantasia pessoal de que “cada um faz do seu jeito” as aproxima das seitas protestantes e da crença que uma pequena leitura de um livrinho ou de uma página na internet as tornará especialistas da fé (Sola Scriptura). Elas não conseguem perceber que o Dharma Tantrico vai muito além de um livrinho e que há muito o que aprender por convívio, reflexão e vivencia pessoal. Joãozinho com sua roupinha de freira (que ele achou bonitinha) se preparando pra “rezar sua missa” é um exemplo disto. Ele nunca foi batizado, nunca assistiu uma missa e nem foi consagrado padre mas em sua soberba ele se considerava o maior dos católicos. Não sabia rezar um terço, nunca fez uma novena, não conhecia sequer o traje dos padres e, então, sua roupa de freira o traia e mostrava a todos a sua ignorância.

Não é de se estranhar que sujeitos assim terminem seus dias num galpão de adoração pentecostal ou num manicômio. O nosso Joãozinho era sincero em sua busca espiritual mas lhe faltava maturidade para aceitar que precisava se aprofundar e lhe faltava também humildade para buscar aqueles que poderiam ensiná-lo.