sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Kumari Puja - Adoração da menina Deusa




Os Tantrikos vêm na figura feminina a própria representação da Divindade. Isto é conhecido por todos. Mas oque exatamente isto significa ? Um Sadhaka Tantriko seria obrigado à se sujeitar à uma mulher perdida, que não respeita nem à si mesma ? Deveria chegar ao ponto de adorá-la ? Isto não tem respaldo em nenhuma escritura ou entre Gurus responsáveis. Esta caricatura abominável das disciplinas espirituais do Tantra não poderia estar mais longe da verdade. Como poderíamos então entender este conceito ?

Mais uma vez é na prática que encontraremos os alicerces adequados para a compreensão dos símbolos. Isto reafirma o caráter esotérico dos Tantras conhecidos por seus iniciados. Observemos o Kumari Puja, a prática da adoração de pequenas meninas como representantes vivas da Deusa. Esta cerimonia é descrita em vários Tantras e sugere-se que a criança, acompanhada de sua mãe, seja vestida com ricos trajes, receba jóias e tenha preciosos perfumes aplicados à sua pele. Uma bela maquiagem é feita e uma linda coroa é colocada sobre sua cabeça. Pronto ! Agora o verdadeiro ritual pode começar ... todo o anterior era apenas a preparação para tamanha honra.



Carregada em desfile pelas imediações.

A Puja começa com o estabelecimento de várias formas da Mãe Divina no corpo da menina, que é uma pequena semente da Deusa que florescerá nela no futuro. Hinos em Sânscrito são recitados (Stotras) e a oferenda dos 16 itens rituais é então feita. Toda a assembleia recita então os Mantras da Deusa, Mãe do Universo e muitos gritam louvores em Seu nome. Ao final os devotos formam uma fila para prestar reverências pessoais à pequena Deusa encarnada e muitos outros presentes são apresentados. A despedida (Visarjana) é feita e todos estão felizes. Na consciência de cada participante há a certeza de que a Divindade pode se manifestar sob várias formas, até a de uma pequena menina. A criança teve uma das experiências mais incríveis de sua vida e certamente trará suas próprias filhas para a cerimonia quando for adulta. Nas comunidades onde o rito é realizado anualmente a ocasião é esperada ansiosamente.





Abençoando as familias em cada residencia onde a Puja é realizada.

Bem, como vimos a representação da Deusa foi escolhida e PREPARADA para se tornar um veiculo da Divindade. Ela foi erguida e honrada com presentes e palavras de superação, disciplina, modéstia e muitas outras virtudes nobres. Só então foi adorada... Oque dizer de uma mulher sem respeito próprio, escrava de seus vícios, humilhada por sua própria querelancia na busca de se auto-engrandecer ? È este o papel que os Tantras esperam de uma mulher – caída e desesperada ? Não, nunca, jamais ! Ela é o veiculo de algo que transcende à si-mesma e que só pode ser alcançado quando se abre mão das fraquezas e vícios. Uma mulher que insistisse em rastejar, em negar seus valores mais nobres e elevados, em se esconder num anonimato vilipendioso não poderia ser adorada. Pelo contrário, ela tem que ter algo de sincera admiração pelo Divino, uma mente que antes se preocupa em se aprimorar ao invés de saciar pequenos caprichos, um coração mais afeito em trazer mensagens de paz do que buscar disputas judiciais por supostas injustiças. A mulher que chega à negar à si-mesma para alcançar e realizar algo que lhe transcende, esta é a mulher adorada nos Tantras.

Repreender o mal, aquilo que é contra o Dharma, é dever do Tantriko e ele pode fazê-lo até mesmo silenciosamente. O iniciado é aquele que está preparado para fazê-lo pois sacrificou o animal do mérito (Punya) e do demérito (Papa) em sua Sadhana cotidiana e vive em constante expiação (Prayashchitta) e, portanto, paga diariamente por realizar os atos que a natureza clama. Jaya Bhairava, Jaya Papantaka.

Louvada seja a Mãe do Universo. Aos pés de Kali, Rudrananda Saraswati.

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